Santana - 0
LGBT - 1 · Combate, julho de 2003, edição em linha
Jornal2003Sérgio VitorinoQuase podia resumir-se assim o balanço das comemorações do 28 de Junho, Dia Internacional do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero (LGBT), que decorreram ao longo de Junho e Julho em várias cidades do país. Entre outros eventos de índole cultural e política, o movimento voltou a tornar visíveis a sua presença e reivindicações, com mais gente a marchar no centro de Lisboa do que no ano anterior, mais gente a aderir a um Arraial Pride desterrado pelo município para um Parque do Calhau que ninguém conhecia, mantendo e reforçando eventos no Porto, em Coimbra e noutras localidades.
Em período de domínio do escândalo da Casa Pia e de tentativas de associação descarada do abuso de menores à homossexualidade, em tempos de políticas de família moralistas e clima social regressivo, numa altura em que a homofobia parece re-legitimar-se e em que tantas portas de armário se voltam a fechar, este sucesso não era evidente. Acrescentemos-lhe a vontade expressa do presidente da Câmara Municipal de Lisboa em acabar "com a cultura de esquerda no município", seja lá isso o que for, e menos evidente era.
As manobras camarárias são várias e aparentemente concertadas: fim do subsídio ao Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa (com a sugestão de que este seria mantido se o evento passasse a chamar-se apenas "Festival de Cinema de Lisboa"); promoção da Lisboa Parade no dia 29 de Junho – um evento fracassado em que a autarquia investiu quase 500 mil contos e que reuniu poucas centenas de pessoas -, para fazer concorrência à Marcha do Orgulho LGBT e simultaneamente interditar ao Arraial a utilização do espaço da Torre de Belém; e, consequentemente, o empurrar do Arraial Pride para a orla de Monsanto – bem nos confins da cidade de Lisboa, negando-lhe a centralidade dos últimos anos.
O erro do presidente foi pensar que tais iniciativas – a par do tal clima social - não reforçariam e acrescentariam unidade a uma comunidade pouco consciente da luta pelos seus direitos não reconhecidos, mas fortemente reactiva - porque já com consciência de si própria - quando os direitos adquiridos são postos em causa. A defesa dos grandes eventos da comunidade passou, assim, a ser um ponto central de mobilização, e permitiu ao mesmo tempo a radicalização e maior politização da Marcha e do próprio Arraial.
Uma vitória expressiva na sequência de um Fórum Social Português em que o empenhamento LGBT foi incontornável, como comprovado, um mês depois, pelas participações pioneiras na Marcha do Orgulho de entidades como a CGTP – com vários dirigentes nacionais -, a ATTAC, a Rede Lilás (algumas associações de mulheres tinham-se estreado no ano passado) ou a Sobreiro 19.
O associativismo LGBT sai assim reforçado: construiu comunidade e maior consciência política, passou a editar um jornal nacional de distribuição gratuita, marcou o terreno e fincou o pé contra a ofensiva conservadora da direita, iniciou a criação de novas redes nacionais (separando águas relativamente à associação Opus Gay, cada vez mais assumida como direita do movimento) e abriu brechas no seu tradicional isolamento. Mais, "forçou" o seu reconhecimento como um movimento social sério, transformador e solidário, não apenas junto dos media – furou-se com sucesso o habitual tratamento sensacionalista, com abordagens genericamente - e ineditamente – correctas – como junto dos restantes movimentos sociais com que tem necessariamente que interagir.
Sérgio Vitorino
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.