Rumo ao II Fórum Social Português
Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003A iniciativa que juntou cerca de 2000 pessoas na Cidade Universitária de Lisboa num fim-de-semana alargado e a convidar à praia marca uma viragem decisiva para os movimentos sociais em Portugal. Não pela dimensão do evento nem pela quantidade de associações presentes – pouco mais de 200 – que estão ainda aquém do que é possível juntar num Fórum Social. O que é novo é que pela primeira vez foram ultrapassadas muitas desconfianças e muitos anos em que os movimentos cívicos, associativos e sindicais estiveram de costas voltadas, tratando da sua agenda própria sem fazer o cruzamento das preocupações que os motivam. Ver sindicatos, associações LGBT, ecologistas e feministas sentados à mesma mesa é uma novidade que o I Fórum Social Português veio trazer ao país.
Apontado o sucesso do Fórum, é preciso não esquecer as dificuldades que envolveram a sua organização. A questão do modo de participação dos partidos não ficou bem resolvida, tendo o Bloco apostado na presença discreta, por contraste com o PCP que transformou a escolha dos nomes dos conferencistas na questão central do Fórum, ali colocando dirigentes da primeira linha do partido. Ninguém esperava que eles trouxessem ideias novas aos debates, mas o que acabaram por fazer foi afastar do processo muitas associações já "escaldadas" no passado com esta atitude de vampirizar o movimento. Mas o pior estava guardado para o último dia: de manhã, o PCP recusava-se a aceitar a inevitabilidade do II Fórum; à tarde, multiplicava as bandeiras do partido nas mãos dos militantes na Avenida da Liberdade e tomava a cabeça da manif passando por cima da opinião dos novos movimentos que tomaram a iniciativa do FSP. O medo de tudo o que mexa e fuja ao seu controlo arruinou o PCP neste Fórum Social.
Agora é a altura de fazer o balanço do processo e procurar não repetir os mesmos erros. Se a discussão sobre o programa e os nomes relegaram para um plano secundário o alargamento da rede e a divulgação do FSP, é preciso tomar medidas para que isso não se repita. O boicote da comunicação social durante os meses de preparação do FSP – notícias, só das divisões entre partidos – deve ser contrariado com mais propaganda, que leve o Fórum para além das grandes cidades. Dinamizar e promover o II FSP como espaço de encontro dos movimentos e associações que procuram uma alternativa ao que esta sociedade tem para oferecer, passa por envolver mais associações, mais juventude, e fazê-lo no país todo. Estamos hoje em melhores condições para o fazer do que há um ano atrás, mas há que contar com os obstáculos que querem colocar no caminho dos novos movimentos com voz própria e que, como se dizia no Fórum, não estão dispostos a ser "a rectaguarda de nenhuma vanguarda".
Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.