Praxe: por uma alternativa à lógica tribal
Movimentos2011Teresa ForteQue tipo de educação Superior será esta que para além de todos os défices estruturais ainda apresenta aos “iniciados” estes valores com traje ditatorial?
O fenómeno das praxes continua a crescer nas faculdades de todo o país bem como a polémica em torno destas que levou recentemente a que a Universidade do Minho seguisse o caminho de outras Universidades e proibisse as designadas “acções ofensivas”.
Penso que este assunto assume os contornos de outros tantos “dilemas sociais” em que a opinião pessoal e o respeito pelo exercício da liberdade individual se confrontam, isto é, o facto de alguém não se identificar com a tradição académica (traje, praxe, queimas e afins) não implica que tente dissuadir quem o faça (apesar de ter vontade). Penso que mais do que uma evangelização anti praxe importa pensar sobre alguns dos fenómenos sociais que a praxe encerra os quais levantam algumas questões.
Penso que uma das mais importantes (e talvez a mais irritante) é a assumpção inequívoca de uma hierarquia rígida que leva a argumentos de “defesa” dos ditos “doutores benevolentes” do género: ”eu não trato mal os meus caloiros, nem os obrigo a fazer certas coisas que os possam magoar, eles fazem porque querem, estão no espírito (…) alguns não têm respeito, é preciso impor algumas regras” e justificações de caloiros do género: ” eles nem foram assim tão maus, tivemos que andar de joelhos, usar orelhas de burro e gritar que somos uns cepos (…) eles gritaram um bocado connosco mas até não correu mal”. Descontextualizando estas frases, o quão absurda parece esta interacção?, o que me leva à próxima questão: Chamar nomes e “obrigar” que se façam actividades ridículas/ potencialmente perigosas é abuso de poder ou a dita praxe normal, aliás, expectativas de uma “praxe normal” cujo argumento - mor é a integração? Até que ponto é que a tal liberdade individual está a ser exercida a partir do momento em que os caloiros já vêm com esta ideia de que a praxe envolve submissão, quiçá humilhação como se fosse um rito de passagem que comporta sacrifícios inevitáveis? Porque é que aceitam os insultos de um “doutor”, ou andar um km de joelhos ou estar de olhos vendados e mãos atadas atrás das costas? A ideia vigente de que é um papel que estão a representar poderá ajudar a esta aceitação tal como um “doutor” que passe horas a berrar no seu estilo autocrático mais comum poderá efectivamente pensar que “apenas” está a ser um bom “praxista”. É pois bastante fácil para ambas as facções (caloiros e doutores) legitimarem qualquer acto perpetrado ou recebido precisamente por terem a expectativa que a praxe tem como palavras chave o exercício de um poder com limites dúbios por parte de uns e a submissão camuflada pela palavra “respeito” por parte de outros. Tudo isto num contexto de representação onde as pancadas de Moliére dão ordem para o início das cenas de humilhação. Será que a integração requer esta relação? Acredito que não.
O curioso é que quem não se adaptar a este “sistema” que me parece um pouco contraproducente e digno de induzir “síndromes de Estocolmo” aos caloiros, das duas uma: ou sai da praxe ou tenta adaptar-se. E agora pergunto: quantos acabam por adaptar-se mesmo não gostando devido à ideia transmitida de forma tácita e expressa que caso não o façam não se “integrarão” tão bem? Caindo no risco de tomar a parte pelo todo penso que muitos permanecem, ainda que de forma intermitente, devido a este receio. Claro que há casos em que as pessoas realmente não se importam de desempenhar o papel atribuído, até podem gostar, sendo que no ano seguinte desempenharão também o outro: o de “doutor”. Este ponto também é particularmente interessante e recorda-me uma experiência em psicologia social nos anos 70 que ficou conhecida como a “Experiência da Prisão de Stanford”. Esta consistiu na simulação de uma prisão em que os papéis de guardas e de prisioneiros foram atribuídos a estudantes voluntários com características psicológicas semelhantes, no sentido de avaliar os efeitos psicológicos da vida numa prisão. Apesar das regras bem definidas e do conhecimento de todos que se tratava de uma simulação em contexto científico, os participantes incorporaram e passaram a identificar-se completamente com a personagem o que se traduziu em “guardas” especialmente violentos e abusadores que humilhavam os “seus prisioneiros” e em “prisioneiros” completamente submissos que obedeciam a qualquer ordem. A experiência prevista para 15 dias, teve que ser interrompida ao sexto dia. Similaridades? Sem dúvida. No que toca a este ponto, acrescento ainda que fiquei muitas vezes estupefacta com o comportamento de pessoas pouco assertivas, caladas, tímidas e que em contexto de praxe, como “doutores”, aproximavam-se de forma assustadora de um Ivan “O Terrível”.
Numa cidade como Coimbra, na qual o poder da universidade sob a égide da “tradição académica” suplanta o poder autárquico, podemos ver os rituais de praxe a qualquer lado e a qualquer hora e é fácil integrá-los como parte da vida da cidade e subsequentemente torná-los cada vez menos “impactantes”. No entanto, sempre que os vejo penso no quão prostituída está a palavra “academia” que simboliza para muitos duas festividades anuais, as quais nem vale a pena comentar, estes jogos de poder semanais ou mensais (com tantas faculdades parecem diários) com direito a umas incursões pidescas nocturnas que se designam de forma amistosa por “trupes” e que envolvem um recolher obrigatório (mais uma vez não vale a pena comentar); músicas de teor pornográfico verborreico nas quais as mulheres são sempre o Cristo (pergunto-me se quem as canta se apercebe do que está a dizer) e uma lista de jogos/ brincadeiras/ actividades geralmente embebidas com álcool. Na lógica tribal, ao passar com sucesso os ritos de iniciação pode-se então ter o acesso ao cálice sagrado do traje e da parafernália de formalismos associados à nova posição de “doutor”.
A questão que mais me preocupa prende-se com o tipo de ideia transmitida e consensualmente aceite de que a Universidade implica isto, “faz parte”. Que tipo de educação Superior será esta que para além de todos os défices estruturais ainda apresenta aos “iniciados” estes valores com traje ditatorial? Não estará na hora de surgir uma alternativa providenciada pela Universidade e levada a cabo por estudantes de calças de ganga e um “Olá, tás bom/a, vamos lá conhecer isto?” para integrar os recém – chegados? Acredito que sim.