Porca guerra
Editorial · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Ao apresentar as suas provas perante o Conselho de Segurança, Colin Powell jogou os trunfos decisivos da Administração Bush. Fotografias, gravações, desenhos, mapas - uma mão cheia de nada. Pesaroso, José Manuel Fernandes, o director do Público e dos primeiros defensores da guerra em Portugal, veio mesmo queixar-se do desprezo com que os seus colegas do Le Monde tinham tratado as "provas", ao escreverm um título em que a palavra aparece entre aspas e ao destroçarem a demonstração feita pelo Secretário de Estado. É sem dúvida pena, mas o facto é que os restantes governos representados no Conselho de Segurança, alguns dos quais apenas esperam pelo negócio de alguns poços de petróleo para darem o seu assentimento à invasão, foram levados a manter as suas reservas e portanto a prolongar o impasse. Todos menos Jack Straw, o homem de Blair, concerteza: avance a invasão desde já.
Em Londres espera-se um milhão de manifestantes contra a guerra neste dia 15. Em todo o mundo serão talvez três a cinco milhões. Um gigantesco movimento ergue-se para parar a guerra ainda antes que esta comece, e toma dimensões que só se conheceram na guerra do Vietname muitos anos depois das primeiras batalhas.
Este movimento contra a guerra tem três grandes efeitos estratégicos, cada um valendo por si.
O primeiro é no domínio militar, directamente. Enfraquecer o dispositivo exterminista é fundamental para parar esta guerra, para vencer esta guerra. Num único sentido esta não é inevitável: é que, ocorrendo como vai ocorrer, havendo já um general norte-americano indicado para governar o território, é decisivo vencer a guerra da opinião dentro dos países belicistas e nos que os apoiam, como é o caso de Portugal.
Em segundo lugar, estamos a disputar o mapa da política com a nova direita europeia, chefiada por Blair em torno do eixo Berlusconi-Aznar, e, vá lá, Durão Barroso. A decisão do Bloco de confrontar Durão com uma moção de censura se enviar soldados ou meios militares para a guerra ou para a ocupação responde muito bem a este desafio: o governo de direita terá que abandonar o projecto de enviar tropas, ou terá que pagar o preço de o fazer.
Mas, em terceiro lugar, o movimento mundial contra a guerra tem um efeito estratégico muito mais importante e duradouro. A guerra foi a continuação da política por outros meios durante a longa Guerra Fria: nenhuma das potências se podia atrever a fazer a guerra fora do seu território de influência, com medo de desencadear a retaliação nuclear, que aliás esteve muto próxima nas crises de Berlim e de Cuba. Mas, com a afirmação do Império e do seu centro, com a afirmação da guerra preventiva infinita que se estende a todo o planeta, é a política que passa a ser a continuação da guerra por outros meios. Parar esta guerra é portanto parar a guerra total da globalização total.
Francisco Louçã
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.