combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Os cavaleiros do apocalipse

Francisco Louçã e Jorge Costa · março de 2003 · Jornal · 2.839 palavras

Combate, março de 2003, edição em linha

O COMBATE faz a pré-publicação dum excerto do primeiro capítulo do livro “A guerra infinita”, de Francisco Louçã e Jorge Costa. Com lançamento previsto para 25 de Março pelas edições Afrontamento, as e os leitores do COMBATE podem adquiri-lo desde já, recebendo-o em casa.

Pedidos para COMBATE, R. Palma, 268, 1100 Lisboa, juntando cheque ou vale postal à ordem de “Combate” no valor de 5,40 euros (território nacional, representa 10% desconto sobre o preço de capa).

Em tempo de guerra, usa-se o que está à mão. E, quando a guerra tem a oposição da grande maioria da opinião pública, nada melhor do que textos belicosos que mobilizem os guerreiros, a par de exageros retóricos que aterrorizem os indecisos. Ora, hoje, na guerra das opiniões, a parte fraca é a que tem mais força, e o partido da paz derrota o partido da guerra – e, por isso mesmo, o argumento das armas procura discriminar, apontar, excluir, condenar, dividir para convencer.

António Ribeiro Ferreira, editorialista do Diário de Notícias (DN), é um dos profetas do Apocalipse que assume a tarefa árdua de vencer a opinião pública. Logo após os atentados de 11 de Setembro, Ribeiro Ferreira proclamava o "fracasso da ONU", invadida por "lágrimas terroristas" (7 de Outubro de 2001). O fracasso era, simplesmente, não se conceber todas as soluções radicais para extirpar o mal. Mas há quem o faça, os valentes que impõem a paz: Ariel Sharon, nem menos, ou os seus aliados. Dizia o editorial de 23 de Janeiro de 2003: "Outro factor significativo ["para a procura de soluções eficazes para a paz na região"] será a reeleição, muito provavelmente com mais votos e maior apoio parlamentar, do primeiro-ministro israelita Ariel Sharon". Sharon, criminoso de guerra, chefe de um governo condenado sucessivamente por desrespeitar resoluções da ONU, ocupante de territórios estrangeiros onde impõe a lei da força, é o "factor significativo" para a paz. O facto é que esta paz guerreira não existe, e talvez isso justifique tanto azedume ao ponto de se chegar à insinuação extraordinária de que os europeus que se opõem à guerra o fazem por saudades do nazismo: "Os senhores da Velhíssima Europa não perdoam aos Estados Unidos terem derrotado o nazismo alemão. (…) As cabeças europeias são assim. Primeiro pactuam e toleram os monstros. Depois fogem e pedem ajuda a quem tem força para os destruir. Mas são sempre mal agradecidos" (27 de Janeiro de 2003).

Neste contexto, já tudo é possível. A criminalização da dissidência atinge um ponto de não-retorno. Não é surpreendente, porque a vertigem da guerra impõe a militarização da política: quem aceita ser recrutado para uma cruzada não pode perdoar aos infiéis. Pelo contrário, seguindo a lógica do discurso de Bush, chegou o momento em que o editorialista dirá que quem não apoie a guerra é necessariamente terrorista – por outras palavras, não se pode aceitar imaginar, muito menos defender, uma política de paz, porque essa é necessariamente um acto de cumplicidade.

Exagero? Espere para ver. Vasco Graça Moura conseguirá sempre ir mais longe do que George W. Bush. Em 19 de Fevereiro, também no DN, o escritor alertou-nos para o perigo lúgubre que nos espreita. O texto chama-se, premonitoriamente, "Europa, 17 de Fevereiro de 2033", e diz-nos o que vai acontecer se não apoiarmos a guerra infinita. Acaba o nosso mundo: o chador será obrigatório para cobrir o rosto das mulheres, a gloriosa Notre Dame de Paris será transformada numa mesquita, serão aplicados castigos como lapidação, corte de orelhas e arrancar de olhos, as autoridades começarão a estudar o uso de altos-fornos para punições mais industriais, a Nona Sinfonia será proibida, embora não se queimem os Lusíadas porque ninguém os lê, a Capela Sistina será coberta com azulejos que sobrarem dos palácios de Saddam, o Papa será obrigado a ir em peregrinação a Meca e, muito pior do que tanta desgraça, a sêmola será plantada nas encostas do Douro para produzir cus-cus. Tudo porque cedemos perante a jihad, a guerra islâmica na Europa, e os americanos já não querem saber de nós.

Raramente se escreveu argumento tão delirante e se chegou, entre nós, tão próximo do fascismo. O medo do árabe é tal que Graça Moura antecipa a conquista da Europa por Saddam Hussein embora, felizmente, nos avise do perigo. Graça Moura é, afinal de contas, um intelectual prestigiado e civilizado. Defensor da pena de morte, abomina naturalmente os castigos da sharia, prefere-lhes uma boa cadeira eléctrica. A bitola do fanatismo arroga-se o poder de distinguir o que é, para todos os efeitos, simplesmente condenável ao mesmo título.

Em tal efervescência militarista, percebe-se porque é que os intelectuais apocalípticos suspiraram de alívio perante o anúncio da publicação de um livro de Jean-François Revel(1). Revel é um homem de confiança, há muitos anos que escreve bons livros a defender as virtudes da América. Bons e muitos: o autor começa a introdução a esta obra a explicar discretamente que só escreveu contra a "obsessão anti-americana" das populações europeias, porque um amigo lhe chamou a atenção para a preguiça a que se votara – afinal, só tem publicado um ou dois livros por ano. Por isso, aí temos esse manifesto da obsessão americana, que começa pelo desprezo pelos não-americanos, em geral os "Europeus, do alto da sua soberba ignara" (p.13) ou, em particular, alguns europeus, Picasso, "lacaio moral" (p.16), o juiz Baltazar Garzon que, imagine-se, só combate o criminoso se se chamar Pinochet, ou ainda a "nulidade" do Prémio Nobel da Literatura, Dario Fo (p.85). Revel explica simplesmente porque é que existe nesta obsessão dos soberbos ignorantes: são psicopatas (p.41). Ou pior, são terroristas disfarçados: se uma instituição de direitos humanos condena o facto de os afegãos de Guantanamo não terem sido acusados nem terem advogado depois de mais de um ano de prisão, como o faz a Amnistia Internacional, é certamente porque está interessada na continuação dos actos terroristas, fazendo todo este "alarido" por causa de "parcas medidas de segurança" (p.172) – que seriam consideradas ilegais e inconstitucionais em qualquer país europeu.

A demonização do adversário é um processo tão antigo como o debate político, e Revel não é o único perito na matéria. Outros editorialistas, como José Manuel Fernandes, director do Público, equiparam-se-lhe na arte: escreve Fernandes, a 27 de Fevereiro de 2003, que nos movimentos da paz se sente a presença nefasta dos que são capazes de "discordar da guerra porque se discorda, por princípio, quase por reacção pavloviana, de tudo o que os Estados Unidos façam e, em nome disso, chegar ao ponto de defender Saddam". Se o adversário reage animalescamente a qualquer acto norte-americano, "quase" salivando e babando-se como um cão de Pavlov, "a ponto de defender Saddam", para que é que se perde tempo com ele? Psicopatas, terroristas disfarçados, animais – o eixo do mal, numa palavra.

Ora, desmentindo-se logo a seguir, Fernandes e outros cavaleiros apocalípticos entram no debate sobre o significado estratégico da guerra. Ainda bem. Mas não abandonam o derradeiro argumento, a última das razões: a guerra é imperiosa porque é moral, o derradeiro argumento de Blair, o líder da nova direita europeia. A disputa na opinião pública transfere-se deste modo para o mais íntimo dos sentimentos de cada um, pois a guerra é condenada pela maioria por causa da voragem de destruição que provoca, é necessário ganhar-lhe apoio com a convicção de que só essa destruição salvará a Humanidade. Aqui está, em todo o caso, a militarização da comunicação: ou és nosso ou és terrorista. E, neste contexto, tudo é possível, incluindo o elogio da pena de morte e da execução extra-judicial – matem o tirano, clama Fernandes (23 de Fevereiro): "Nesta campanha, o que está em causa é libertar o mundo de um tirano perigoso, mortal para o seu próprio povo, potencialmente mortal para os seus vizinhos e inimigos". Mas o "tiranicídio" costumava ser entendido como um acto brutal dos oprimidos, e não da potência estrangeira que apoiou e ajudou a armar o tirano. Só que, quando se ganha o gosto ao poder de decretar a vida e morte de tiranos, é difícil recuar: na sua cavalgada bélica, Fernandes vai por isso mais longe, ao denunciar o Papa por não apelar também ao tiranicídio.

Seja dito em homenagem a quem se nos opõe em argumentos, que Fernandes condena agora a venda de armas portuguesas ao Iraque e critica Durão Barroso por ter insistido em que esse era um bom negócio: "Infelizmente, a maior parte das democracias não tem mais escrúpulos do que Portugal. Se nós enviámos umas muniçõezecas para alimentar a guerra de Saddam contra o Irão, a França forneceu os seus sofisticados aviões Mirage e os Estados Unidos a tecnologia que permitia o fabrico de armas químicas" (editorial de 1 de Março de 2003). Como é evidente, estas vendas de armas ao Iraque reforçaram a ditadura na época, mesmo que o esmagamento dos exércitos de Saddam em 1991 tenha, desde então, contido as suas ameaças.

É preciso, portanto, recorrer à dramatização da eminência de um perigo mundial para justificar "a ideia de uma ‘guerra preventiva’, no fundo uma guerra destinada a evitar um mal maior, uma guerra mais destrutiva" (editorial de 13 de Fevereiro de 2003). Fernandes bem saberá que a guerra preventiva só tem coerência se for um direito exclusivo de uma potência, um prenúncio da guerra infinita, e se não for retomada por nenhuma outra força: se a China invade preventivamente Taiwan ou se o Paquistão invade a Índia, ou o contrário, então a guerra preventiva torna-se a forma generalizada de retaliação antecipatória. A guerra preventiva é uma obsessão americana, e só pode ser americana.

É assim que dois dias depois, Fernandes garantia que essa guerra preventiva abriria o caminho para a paz e permitiria mesmo resolver o mais incómodo dos problemas dos belicistas, a aliança com a monarquia saudita, financiadora do terrorismo fundamentalista islâmico: "A vontade de Washington de se distanciar da ‘Casa de Saud’ é evidente. Até agora, a dependência do petróleo tem tornado essa tarefa difícil, mas o 11 de Setembro e as evidências de que o islamo-fascismo se alimenta no radicalismo wahhabita e no dinheiro do petróleo mudaram as prioridades. Após Bagdad, tudo indica que Washington se virará para Riad". Puro engano. Não tinham passado mais outros dois dias e John Bolton, Sub-Secretário de Estado para o controlo de armas e segurança internacional, foi a Israel declarar que é para Damasco, Teerão e PyongYang que Washington se virará de seguida, com o pretexto de acabar com as armas de destruição massiva. Isto dito logo em Israel, ao lado de Sharon, que tem ilegalmente um número indeterminado de armas nucleares e que já ameaçou utilizá-las.

Só que o argumento do apocalipse não se fica por aqui. José Pacheco Pereira, outro dos mais destacados advogados da guerra, categórico como sempre, vai ainda mais longe. Para o Iraque, e em força, custe o que custar. Ignorem-se as manifestações pela paz porque, a dar-se-lhes razão, Saddam "encontraria o caminho mais desimpedido do que tem agora" (Público, 20 de Fevereiro de 2003). No mesmo artigo, explica que só é possível existir hoje um Direito Internacional porque este é suportado pelas forças armadas norte-americanas. Duas semanas antes, Pacheco Pereira escrevia que "Esta é uma verdade incontestável: são as forças armadas dos EUA, os seus homens, os seus satélites, as suas bombas, incluindo as suas bombas nucleares, que há mais de 50 anos defendem a Europa". Se a verdade é incontestável, ninguém se pode atrever a contestá-la. Mas será mesmo? A presença militar norte-americana na Europa fez parte do equilíbrio do terror, da dissuasão mútua entre a NATO e o Pacto de Varsóvia, que evitou o holocausto nuclear, mas permitiu naturalmente toda a violência dentro de cada território – a URSS a invadir a Hungria ou a Checoslováquia, e as ditaduras autorizadas a instalar-se e a manter-se em Portugal, Espanha ou Grécia. Em Portugal, temos poucos motivos para agradecer a Washington e à NATO o apoio que deram a Salazar. Mas isso que importa a Pacheco Pereira, defensor da Europa vigiada pelas armas norte-americanas? Resta o consolo de o mundo maravilhoso de Pacheco Pereira não ter trazido os bombardeiros dos EUA para os céus de Lisboa contra a ditadura de Salazar, que à época despejava napalm norte-americano nas matas de África, fazendo gala das suas armas de destruição massiva.

No entanto, e no mesmo artigo, Pacheco Pereira aproxima-se da questão estratégica que está em causa, afirmando que o petróleo só é importante para o retirar como arma económica: "O problema principal não é o controlo dos poços de petróleo, é a paz e a estabilidade política no Médio Oriente (…) e assim permitir que as matérias-primas estratégicas da região não possam ser um instrumento complementar de guerra terrorista". Pode o autor ignorar que o objectivo e o resultado da guerra são permitir que as matérias-primas estratégicas possam ser um instrumento do Império na definição da sua Pax Americana?

A tremenda ameaça do Iraque, o perigo eminente de uma guerra em grande escala, que é o que fundamenta a comparação feita por Fernandes de Saddam com Hitler, para justificar a necessidade do tiranicídio, o que é igualmente insinuado pelos restantes cavaleiros do Apocalipse. Ora, esta comparação é absolutamente infundada. Hitler representava o maior poder militar da época, suportado pelo aparelho industrial de um dos países dominantes da economia mundial e por um sistema financeiro que dispunha de recursos impressionantes, era apoiado pela maioria da população do seu país, e estava lançado em guerra de conquista de três continentes, a Europa, a Ásia e a África. Comparar Hitler a Saddam revela a vontade de menosprezar o que representou o nazismo e a sua força. Pior ainda, Paulo Portas, para defender a guerra, veio argumentar (1 de Março de 2003) que, perante a eminência do perigo, o partido da paz abre o caminho para a guerra. Não é nada de novo: outros já o fizeram antes dele, com particular destaque para Pacheco Pereira e Fernandes. Capitulação, espírito de Munique, gritam – Chamberlain e o seu chapéu-de-chuva a ceder a Hitler e a deixá-lo avançar, essa é a marca da cobardia dos "pacifistas" que nos querem desarmar perante o perigo, dizem. No fundo, preferiam que Hitler tivesse ganho, avança logo Ribeiro Ferreira. Esquecem com alguma bravura que não foram os "pacifistas" que armaram Hitler, foram os grandes industriais e banqueiros da Alemanha, que não foram os "pacifistas" que aceitaram a ocupação nazi de países da Europa central, foram os governos da França e da Grã-Bretanha. Esquecem entretanto que os EUA se mantiveram fora do conflito até Pearl Harbor ter tornado inevitável a sua intervenção, depois de atacados directamente, e que só agiram quando era do seu interesse nacional tomar parte na guerra. Comparar Saddam Hussein com a ameaça mundial que Hitler constituia pode ser boa propaganda, mas é má história e é certamente política desonesta.

A brutalização das opiniões públicas pelo partido da guerra é, aliás, compreensível. A perda de influência é logo interpretada pelos cavaleiros do Apocalipse como a prova de que o Eixo do Mal está a perverter as mentes e as almas dos puros: é a prova provada da sua maldade, a destruição deve ser implacável. A opinião maioritária contra a guerra demonstra como é poderoso Saddam, e assim se justifica ainda mais a urgência da guerra preventiva. Só que tudo isso é uma falsificação e uma mentira, diz um dos homens que mais se destacou na percepção do Império. Thomas Friedman, colunista do New York Times, ex-correspondente em Israel, é uma vedeta da imprensa norte-americana e nunca poupou as palavras na explicação do neoliberalismo militarizado e, em particular, da força absoluta dos EUA. A 28 de Março de 1999, num manifesto que ficou para a história, explicava com simplicidade que, "para que a globalização funcione, a América não deve ter medo de agir como a super-potência todo poderosa que é. A mão invisível do mercado nunca operará sem um punho escondido. A MacDonalds não pode prosperar sem a McDonnell-Douglas, que concebe o F-15, e o punho escondido que dá segurança ao mundo em benefício da tecnologia de Sillicon Valley chama-se a marinha, o exército e a força aérea dos EUA". Não há negócios sem a força militar, a globalização deve ser armada.

Ora, é o mesmo Friedman quem escreve agora (El Pais, 21 Fevereiro de 2003), que só se pode justificar a guerra se se abdicar da mentira: "Não se leva um país para a guerra com uma mentira. Digam a verdade às pessoas. Saddam não é hoje uma ameaça para os EUA. Pode ser desarmado. Retirá-lo do poder através de uma guerra é uma escolha, mas é uma escolha legítima". Friedman tem razão: o que estamos a discutir é a escolha da guerra, e a guerra é desencadeada por George Bush e não por qualquer perigo iraquiano. Essa é a ameaça. Se é legítima ou não, é sobre isso que se tem que pronunciar a democracia. E é sobre isso que argumenta este livro.

Francisco Louçã e Jorge Costa

1 Jean-François Revel, A Obsessão Anti-Americana, Lisboa (Bertrand Editora, 2003).

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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