O sacrifício de Diana
Combate, outubro de 2003, edição em linha
Jornal2003Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:
- Olá. Sabes que já escolhi o curso que vou fazer?
- Não. Que curso é?
- Decidi ir para Medicina.
- Decidiste ir para Medicina? Assim sem mais nem menos?
- ... Sim!
- Mas...ouve lá, já falaste com o teu Pai?
- Não! Falei com o teu...
A internet não perdoa, assim que foi conhecida a epopeia da candidatura de Diana à faculdade de medicina da Nova, circularam textos como este que, com humor, comentam a queda dos ministros Lynce e Martins da Cruz. Mas Diana é apenas uma vítima das circunstâncias que levaram o seu pai a ser ministro do governo de Durão. Se tal nunca tivesse acontecido, Diana teria terminado os seus estudos em Madrid e teria lugar assegurado na faculdade de sua escolha, ao abrigo de uma excepção legalmente instituída. Ao vir fazer o 12ä ano em Portugal, colocou-se fora das condições para integrar o regime excepcional e escreveu ao colega do pai a pedir um excepção à excepção, visto que não pode ser de todo responsável pelos empregos e funções governativas do pai. Martins da Cruz que é maior e vacinado e toma as suas decisões.
Acossado por hordas de estudantes que não conseguem entender essa regra tão elementar da nossa democracia que consiste em que o ensino público deve ser pago pelos seus utentes, Lynce despachou favoravelmente. Era o que faltava ainda arranjar complicações com o amigo do patrão e chefe da diplomacia e das Necessidades. Mas o caso vem a público, Lynce demite-se de consciência tranquila, "voltaria a fazer o mesmo", assegura. No mesmo dia, na Assembleia da República, Martins da Cruz pai evoca a sua honra para assegurar aos deputados que nada tinha que ver com a história. Durão confirma-o de pedra e cal à frente do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros. Poucos dias depois sabe-se que antes do despacho, já o secretário de estado das comunidades, um tal Cesário, teria recebido ordens do gabinete de Martins da Cruz para propôr um projecto-lei que alterasse o regime de excepção no acesso ao ensino superior dos filhos dos funcionários diplomáticos. Surpresa: na proposta defendida por Cesário, Diana teria o seu lugar assegurado sem necessidade de cunha ou favorecimento. A lei feita à medida das necessidades dos governantes e das suas famílias. Há antecedentes com Miguel Cadilhe e a casa que este queria comprar sem a carga fiscal correspondente, lembram-se? Uma vez mais Martins da Cruz evoca o seu desconhecimento da questão, parece que até estava de férias quando aconteceu a reunião de secretários de estado que discutiu a proposta levada por Cesário... Soube por mail depois e fez retirar o projecto.
Magoada e sem outras culpas que não a de querer estudar medicina, Diana abandona o país para estudar. Seria interessante saber se tem lugar assegurado nas faculdades estrangeiras onde concorreu e sob que condições.
Martins da Cruz pai também já abandonou o governo, afinal tinha querido demitir-se com o Lynce. Durão é que o segurou. Afinal tinha omitido pontos da história a Durão que afinal preferiu demiti-lo. Afinal a sua palavra de honra valia pouco. Afinal, deve ser melhor pai que ministro.
Com tanto folclore já ninguém se lembra de Maria Elisa que vai fazendo os seus contratos com a RTP e preparando o seu lugar de assessora cultural na embaixada portuguesa em Londres. Eleita deputada pelo PSD, a jornalista suspendeu o mandato por alegados motivos de saúde. A fraude torna-se evidente e se o governo aplicasse o rigor da legislação laboral a esta baixa médica fraudulenta, Maria Elisa seria despedida com justa causa do parlamento, da RTP e da embaixada de Londres. Menos mal que o seu substituto na bancado parlamentar do PSD, já avisou, "não faço ideia do que vou fazer aqui".
Estas não são histórias de enriquecimento fácil ou de contas na Suiça, que já fizeram cair ministros deste governo, são exemplos de burlas, do nepotismo e de uma enorme falta de ética da direita que nos governa. Até quando?
João Carlos
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.