O império ao ataque
Combate, março de 2003, edição em linha
Jornal2003Filipe CalvãoOs dias que vivemos são de um paradoxo inquietante. A ordem mundial que definiu as relações entre nações desde a segunda guerra mundial é abalada de morte com esta guerra feita contra tudo e todos. Mas um outro mundo nasce, no coração do império, portador de uma esperança transformadora.
Uma declaração de guerra infinita
Vale a pena debruçarmo-nos brevemente pelo argumento da guerra. Os motivos que levarão Bush e o novo líder da direita mais reaccionária da Europa, Tony Blair, a "mudar o regime de Bagdad" não são só da ordem da loucura, como facilmente se depreende, nem a inevitável consequência do país mais poderoso do mundo ter como presidente um xerife texano. Pondo de parte os argumentos da necessidade do desarmamento da ditadura de Saddam ou das suas pretensas ligações às redes do terrorismo organizado, o que leva os EUA a enfrentar a guerra mais dura de sempre desde o fim das operações militares no Vietname é de uma assustadora clarividência: o controlo hegemónico da produção e distribuição do petróleo continua a ser a garantia de recuperação da economia norte-americana, e por arrasto, da do mundo. O processo que se abriu com o domínio territorial do Afeganistão e com o controlo político do Paquistão e das ex-repúblicas da União Soviética no Médio Oriente é a marcha do Império. Os valores que se levantam, de domínio inquestionável da economia mundial, superam os argumentos morais de respeito pela ordem mundial. A guerra que agora começa ultrapassa em muito o Iraque. Mais: não responde a uma agressão prévia, não é preventiva, não dá justificações a ninguém. É infinita e global, porque a partir de agora todos estarão na sua mira. Esta é a primeira guerra do Império.
As primeiras vítimas da guerra
A oposição à guerra já fez os seus primeiros danos colaterais: Aznar, relativamente descansado por se retirar em breve da política espanhola, deixará o seu PP sem prestígio enquanto que Berlusconi decidiu prudentemente retirar-se do protagonismo belicista depois de um movimento contra a guerra que juntou, logo em Outubro, mais de um milhão de pessoas em Florença. Mas é Tony Blair quem tem a cabeça mais a prémio: com uma oposição de mais de 100 deputados do Partido Trabalhista e demissões em catadupa de membros do seu Governo, os ventos não são favoráveis para as bandas de Downing St, sendo ingloriamente apoiado no parlamento pelos deputados da direita. Durão Barroso enfrentará uma moção de censura e uma oposição à guerra que só teve um paralelo – num contexto diferente – na mobilização por Timor.
É, decerto, um império que parte para a guerra fragilizado. A despudorada fabricação de provas, a mentira fácil para justificar a guerra (tornando amigos antigos rivais eternos como Saddam e Bin Laden) ou a verborreia dos arautos portugueses do Império (é difícil não citar Vasco Graça Moura: "A extrema-esquerda é o lumpenfolclore dos drogados no ódio demencial à democracia e cultiva o piercing repugnante da violência sob as tatuagens farfalhudas do pacifismo") só provam uma coisa: o Império está assustado com a guerra à sua guerra. A recente cimeira dos Açores é a lógica do medo a funcionar. A tranquilidade dos pastos verdejantes da ilha perdida no meio do Atlântico contrasta com o evidente nervosismo dos senhores da guerra, desesperados com a obstinação de Bush. Este continua a ser, por enquanto, o único capaz de se dar ao luxo de ignorar por completo a crescente oposição interna à guerra. Apesar das tomadas de oposição de alguns órgãos de imprensa, do envolvimento activo de artistas e personalidades, de manifestações de centenas de milhares de pessoas, o Imperador ainda tem muito circo para oferecer. Sendo já mais importante do que o culminar do movimento contra a guerra no Vietname, este movimento nos EUA ainda está aquém do que seria necessário para parar a guerra.
A força do movimento global
Depois das primeiras guerras em directo, com bombas inteligentes e ao alcance de um telecomando, a dificuldade da guerra não está, pela primeira vez, lá longe, no campo de batalha. Chegou o tempo da guerra onde ela menos se esperava, no coração do Império. A manifestação global de 15 de Fevereiro é o exemplo vivo da nova dinâmica dos movimentos sociais nascida com o Fórum Social Mundial e no período que lhe antecede de contestação à globalização neo-liberal. Da experiência viva e criativa dos movimentos nasce este amplo arco de combate à guerra, ainda antes de ela ter começado. O desafio ficou lançado, é preciso perpetuá-lo: entrar na esfera do social, criar dinâmicas onde elas nunca existiram, dar força à pluralidade que é a virtude deste movimento.
Os dias que correm são de um paradoxo inquietante. ONU, G-8, Nato, tudo é posto em causa. Mas a esperança está do nosso lado. Com quem não só já acredita que outro mundo é possível mas que já o está a construir.
Filipe Calvão
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.