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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O CDS e a Quarta Internacional

APSR · 19 de janeiro de 2012 · Bloco e APSR · 572 palavras

Desde que Paulo Portas anunciou que está a ler uma biografia de Trotski, a Quarta Internacional anda na boca do CDS. João Almeida e Lobo Xavier são os autores dos contributos mais recentes para a falsificação histórica do papel desta organização.

João Almeida é um ex-dirigente desportivo do Belenenses que também vice-preside a uma das claques do governo, a bancada parlamentar do CDS. Na sexta-feira passada, procurou brilhar com referências eruditas, mas julgou que historiador é quem inventa uma história: "há um partido fundador do Bloco de Esquerda que pertenceu à Quarta Internacional trotsquista, onde estavam algumas das ditaduras mais sanguinárias do mundo".

No dia seguinte, o Expresso publicou uma entrevista a outro centrista, Lobo Xavier, advogado e homem de negócios da Sonae e da Mota Engil. A viver horas difíceis depois de vários dirigentes do CDS terem sido descobertos em redes maçónicas agora famosas, o partido estava a precisar de um advogado. E ele chegou, invocando também... a Quarta Internacional. A organização fundada por Leon Trotski já não seria afinal uma hospedaria de ditadores, mas apenas o exemplo de mais uma "sociedade secreta", tão boa ou tão má como outra qualquer. Lobo Xavier, sempre próximo do poder financeiro e nos ecrãs de todos nós, sabe que uma das técnicas para gerir um escândalo é produzir ruído ao lado.

Enfim, desde que Paulo Portas anunciou que está a ler uma biografia de Trotski, a Quarta Internacional anda na boca do CDS.

Ora, a Quarta Internacional é uma organização bem concreta e, para registo dos centristas e de quem mais se interessar, a Associação Política Socialista Revolucionária é a sua secção em Portugal. A actuação da Quarta Internacional faz-se à luz do dia, pela vontade de milhares de militantes nos cinco continentes, que se reúnem à luz do dia e que constroem organizações políticas independentes ou de convergência com outras correntes marxistas. Em Portugal, o PSR ajudou a fundar o Bloco de Esquerda - e parece que não foi João Almeida o primeiro a descobri-lo antes deste texto. Em grandes mobilizações e processos de luta - das lutas laborais ao movimento alterglobalização, das mobilizações feministas ao movimento dos indignados - os activistas que se revêem na tradição política da Quarta Internacional fazem o debate aberto e orgulham-se da sua perspectiva militante.

O que junta estes homens e mulheres é uma trajectória política que resulta de um balanço particular da experiência da esquerda e das vitórias e derrotas do passado. Desde a sua fundação, em 1938, a Quarta Internacional representou a ruptura com a caricatura estalinista do socialismo, desenvolveu e actualizou uma concepção de democracia socialista assente no pluralismo político e no respeito pelos direitos democráticos essenciais.

É um facto que a perseguição e as ditaduras são muito familiares à Quarta Internacional. É que, enquanto democratas e liberais das escolas de Almeida e Xavier defendiam a razão do Estado e dos negócios (do Irão do Xá ao Chile de Pinochet, da Espanha franquista à Grécia dos coronéis), muitos marxistas revolucionários conheceram a prisão, a tortura e a morte às mãos dos ditadores realmente existentes em ambos os lados do Muro.

João Almeida e Lobo Xavier convencem-se a si próprios de que a elite a que pertencem pode, a partir das suas redes de poder (de Estado ou sociais, mediáticas ou ocultas) enganar todos, sempre, ao mesmo tempo e sobre qualquer assunto.

Mas, até nesse caso, eles sabem que as coisas não são bem assim.

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2012.

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