Jornalistas dispostos a lutar
Combate, janeiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Francisco RibeiroA expressiva adesão dos jornalistas à greve geral de dia 10 de Dezembro serviu não só como reflexo do repúdio da classe relativamente à proposta de Código Laboral do Governo como também para contrariar a ideia generalizada de indisponibilidade dos profissionais da comunicação social em participar em paralisações colectivas (uma ideia inclusivamente partilhada pela própria Direcção do Sindicato de Jornalistas que se mostrou renitente na convocação desta greve).
Apesar da elevada precariedade nos vínculos laborais (desde falsos recibos verdes, contratos a prazo e estágios intermináveis), da fraca taxa de sindicalização e da relativa ambiguidade do sindicato (preocupado com a cobertura da mesma) no apelo à greve, o protesto contou com uma participação expressiva dos jornalistas, apesar de muito desigual consoante os órgãos de comunicação social. A adesão atingiu a sua expressão máxima no Jornal de Notícias e Visão com taxas de 93% e 90%, segundo números revelados pelo próprio sindicato. Na agência Lusa, o número de grevistas correspondeu a 75% da redacção em Lisboa, enquanto a Lusaweb paralisou totalmente. No Público, a adesão à greve rondou os 44% no conjunto das redacções, descendo o número para 35% no Público PT. Na A Capital e 24 Horas a adesão foi de 83% e de 53%, enquanto no Diário Económico a adesão se ficou pelos 20%.
Em alguns órgãos de comunicação social, os jornalistas optaram por outras formas de luta. Foi o caso da TSF que só divulgou informação relacionada com a cobertura da greve, emitindo igualmente um comunicado onde os trabalhadores se solidarizavam com o protesto, e do Correio da Manhã onde 23 jornalistas efectuaram uma paralisação parcial, entre as 15h e as 17h, concentrando-se em frente às instalações do jornal. Também no DN, os jornalistas preferiram antes um gesto simbólico, aprovando uma moção de solidariedade com os trabalhadores em greve.
Entre as estações de televisão, a adesão ao protesto foi muito inferior. Apenas na RTP se pode falar em greve, com a adesão de 50 jornalistas do conjunto das redacções e com o encerramento do centro de emissão regional de Évora.
Porque a classe jornalística enfrenta a maior crise de sempre, porque os níveis de desemprego dispararam e porque o sentimento de insegurança tomou conta dos trabalhadores, este era, de facto, o momento oportuno para levar a cabo uma greve no sector.
Por outro lado, muitos jornalistas viram na proposta do Governo um agravamento dos principais problemas que já enfrentam nos seus postos de trabalho. O prolongamento das situações de contrato a termo (que é já pratica corrente para os primeiros anos de carreira dos jornalistas); a redução do período de trabalho nocturno que afecta essencialmente o pessoal das televisões e rádios; a introdução de dispositivos que vêm facilitar a prestação de trabalho para as diversas empresas pertencentes ao mesmo grupo económico, uma tendência crescente no sector que sairá reforçada; a maior facilidade da entidade patronal em recorrer à figura do despedimento colectivo a que os empregadores estão sempre a aludir de forma ameaçadora (mas sem grandes consequências, até agora).
A greve teve ainda o mérito de demonstrar a importância do papel dos delegados sindicais na organização das lutas dos trabalhadores, que neste caso foi mesmo determinante para a convocação da própria greve. Em resposta às dúvidas e hesitações da Direcção do Sindicato – que entendia não estarem reunidas as condições objectivas para uma adesão satisfatória –, os delegados transmitiram-lhe o sentimento dominante nas redacções, reiterando a importância em aderir ao protesto. A insistência foi tal que a Direcção, que havia já decidido não apelar à greve, acabou por rever a sua posição e lançar um apelo aos jornalistas no sentido de participarem no protesto.
O apoio, em parte espontâneo, dos jornalistas à greve veio, deste modo, revelar o seu desejo em intervir na manutenção e reforço dos seus direitos, o que poderá agora ser canalizado para novos protestos conjuntos da classe, quebrando a passividade a que parecia estar condenada.
Francisco Ribeiro
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.