Inevitabilidade e desemprego
Combate, setembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Nada a fazer. De um lado, a curva demográfica. Do outro, o espartilho orçamental do deficit público. Entre ambos uma política caótica e tardia de “democratização” do ensino superior e de que não há responsáveis. Resultado mais que óbvio: professores a mais, alunos a menos, desemprego certo, inevitável. Nada a fazer.
A inevitabilidade acaba sempre por escolher o campo do poder. Tornou-se a grande aliada deste governo, entrincheirado por detrás do saldo demográfico, posição seggura para quem não quer dar respostas.
È preciso reivindicar o direito à diferença. Transformar o desenho das curvas demográficas em oportunidades de melhoria de ensino (dimnuindo o número de alunos por turma). Romper a lógica da poupança que sai cara, do não investimento no ensino que depois deixa o país a tentar viver à custa da mão de obra barata.
E parte da inevitabilidade é muito frágil: para além de problemas estruturais do ensino que o governo não resolveu, este somou-lhe, com o fantasma escondido do deficit orçamental, problemas conjunturais. Basta lembrar a diminuição de dois para um dos professores do 3ƒ ciclo no estudo acompanhado, o encerramento do ensino recorrente em várias escolas, o encerramento de Institutos, o regresso dos destacados no ME às escolas (que significam é claro menos horários para os professores contratados e desempregados), o encerramento de escolas com poucos alunos. Todas medidas a pensar em poupar nas contratações.
Trata-se sempre de escolher. De política e não de fatalidade. Recuperar a democracia e a capacidade de pensar políticas face às fatalidades totalitárias que excluiriam qualquer alternativa e qualquer mobilização social. Esta é a primeira tarefa que os professores têm na sua luta contra o desemprego e a precariedade que atinge cerca de 40 mil professores.
O que faz dos concursos a que assistimos o maior despedimento colectivo do país. Despedimento de professores que foram a mão-de-obra barata da educação, impedidos de progredir na carreira, descartáveis, utilizados e deitados fora, depois de terem dado aulas às turmas que outros não queriam, em horários inimagináveis e muitas vezes mais que incompletos, a que correspondem salários igualmente incompletos.
E, para além dos que foram despedidos, mesmo depois de muitos terem trabalhado mais do que o suficiente para, segundo a lei geral de trabalho que agora o governo quer mudar, ficar vinculados, há os outros que foram vítimas de uma fraude: sem que ninguém tivesse tido coragem de os esclarecer quanto ao mercado de trabalho futuro investiram durante anos na sua educação para se encontrarem, precários como tantos, especializados apenas no desemprego, todos os que acreditaram por exemplo que os cursos de papel das privadas, feitos para o lucro seriam a sua solução de promoção social, herdeiros que eram da geração que acreditava ser um curso superior uma via segura de promoção social.
Aos professores resta lutar ou aceitar de forma mansa a lógica que o governo quer impôr. Sabemos qual das duas alternativas escolher: resgatar a política dos falsos becos em que a querem meter, tentar organizar os desempregados para uma batalha política de longo fôlego o que em Portugal é uma tarefa mais do difícil mas a que há que não virar as costas.No fundo, o melhor a fazer é partir da ideia de que o maior egoísmo dos professores desempregados é reivindicar as condições que melhorariam um pouco a educação, parte fundamental da nossa vida colectiva.
Carlos Carujo
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.