índia/paquistão será a guerra inevitável?
Combate, julho e agosto de 2002, edição em linha
Jornal2002Nos últimos dias surgiram constantemente notícias sobre a possibilidade de uma guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão, enquanto isso não acontece (esperemos!) todos os dias morrem várias pessoas nos confrontos entre hindus e muçulmanos. O comunalismo (forma de xenofobia entre grupos de religiões diferentes) tem sido a arma utilizada pelos governos destes países contras as suas próprias populações. A ameaça nuclear permite desviar a atenção de questões tão importantes como o facto de se tratar de países entre os mais pobres do mundo, com populações maioritariamente iletradas cujos direitos humanos mais básicos (educação, saúde, habitação...) são quotidianamente violados. Ao contrário da ideia que muitos comentadores pretendem impôr, essa situação paradoxal não se deve ao seu atraso civilizacional mas é antes o resultado dos efeitos da globalização e da acção da política e dos interesses norte-americanos.
APESAR da insistência dos media americanos e europeus na divulgação de histórias e reportagens sobre a guerra iminente entre a Índia e o Paquistão (citando os representantes governamentais de ambos os países), existe uma larga parte da população indiana que não subscreve as opiniões do seu governo. Na verdade, tem havido uma oposição activa composta por um grande número de pessoas de ambos os lados da fronteira que consideram que a guerra não é solução para os seus problemas, que vêm aumentando com a globalização e as políticas económicas neo-liberais (adoptadas e implementadas pelos respectivos governos).
Na Índia, existe um forte sentimento anti-nuclear que tem vindo a aumentar cada vez mais e a assumir formas públicas de afirmação. É o caso das manifestações anti-nuclear que ocorreram em diferentes partes do país, depois dos testes nucleares em 1998. Em poucos dias, milhares de pessoas saíram à rua demonstrando a sua oposição.(...) No entanto, não podemos cometer o erro de tomar todo o movimento anti-nuclear como um movimento anti-guerra. Há alguns elementos que se opõem ao uso de armas nucleares, mas apoiam a guerra de uma maneira geral.
Nos últimos 30 anos houve 4 grandes guerras entre a Índia e o Paquistão. Existe um forte sentimento anti-Paquistão entre a maioria da população indiana, que vem sendo alimentado pela classe governante. Este sentimento tem sido um dos principais apoios, que todos os governos indianos têm tentado sucessivamente manter. A classe dominante desenha o retrato de um inimigo – o Paquistão – sempre que existe uma crise. Estas tentativas são secundadas pelos media indianos e, como resultado, as pessoas na Índia facilmente vêem o Paquistão como o seu inimigo natural. Mas existem certas dinâmicas que impedem o governo de agir livremente. Cada vez mais a opinião pública indiana está consciente de que os seus líderes mentem sobre a situação de Caxemira, um dos pontos do conflito entre a Índia e o Paquistão. Ambos os governos dos dois lados da fronteira tratam aquele território como seu, sem qualquer consideração pelo movimento de independência daquela população. Existe um gritante abuso dos direitos humanos em Caxemira, que a administração tenta com muito custo dissimular: o movimento pela independência de Caxemira é sempre conotado com actos subversivos do Paquistão. No entanto, existem vários relatórios sobre a situação dos direitos humanos, que ajudaram a abrir os olhos da opinião pública indiana, tal como também existe uma oposição à política sobre a questão de Caxemira. Convém salientar que, à parte de alguns grupos políticos de esquerda (trotskistas e marxistas), mais ninguém (mesmo outros partidos de esquerda) entende esta questão à luz da auto-determinação de Caxemira. Muitos defendem que este assunto pode ser resolvido pelo diálogo entre os dois países, sem qualquer participação por parte da população na decisão a tomar sobre o seu próprio futuro.
A questão vital, neste momento, é: existirá uma guerra entre estes dois vizinhos? Apesar de não existir uma resposta clara e definitiva sobre o assunto, podemos acrescentar que depende muito do papel dos Estados Unidos. Temos um partido irresponsável no governo indiano e um ditador sem respeito pelas leis internacionais no Paquistão, que podem provocar uma guerra para servir os seus próprios interesses. Por outro lado, pela primeira vez, a imagem do inimigo construída pelo governo indiano coincide com o inimigo dos EUA: os muçulmanos, onde quer que estejam. A descoberta deste novo inimigo global aproximou as altas patentes militares da Índia e dos EUA. Verifica-se, actualmente, uma mudança na política externa indiana, que está a tornar-se pro-americana. Mesmo os media indianos, que no passado não tinham esta posição, estão agora num constante louvour aos EUA. Qual o papel que os EUA irão assumir num conflito armado no sul da Ásia? Ficarão tranquilos e calados a assistir? O sub-continente, com a sua enorme população, é uma vantagem para eles e por isso uma coisa é clara: a guerra não vai servir nenhum dos seus interesses, pelo contrário, será prejudicial para os seus planos de investimento. Os EUA, com um olho nos campos de petróleo da Ásia Central, subjugaram recentemente o Afeganistão e instalaram um governo-fantoche de modo a permitir a concretização de um oleoduto que atravessa a Ásia Central (pelo Afeganistão e Paquistão) até qualquer porto no litoral. Os efeitos de qualquer guerra serão severos para os investimentos americanos na região. No entanto, os EUA estão certamente interessados em disseminar o medo por uma possível guerra, o que seria benéfico economicamente pois ambos os países são seus clientes no fornecimento de armas. A euforia da guerra irá, com certeza, ajudar os EUA a ressuscitar a sua indústria de armamento, que já tem no sub-continente um mercado para a sua produção.
A burguesia indiana não está obviamente a favor da guerra. Os mercados de capital indianos caiem drasticamente sempre que surjem rumores sobre o início da guerra. Por sua vez, os capitalistas indianos estão interessados em conseguir o mercado paquistanês, que não é pequeno. Os seus interesses foram evidentes, no decorrer do encontro entre Musharraf e Vaijpayee em Agra, no passado mês de Agosto. Vaijpayee ofereceu-se para abrir as fronteiras: mais relações comerciais a aproximarem os dois países. Mas também eles têm as suas limitações, uma vez que não conseguem controlar este partido fascista que se encontra no poder.
Igualmente importante é saber qual o papel que irão desempenhar os partidos de esquerda, uma vez que a classe operária tem sido aquela que mais sofreu com esta situação de conflito. O seu papel será, com certeza, importante na resistência à guerra.
Sushovan Dhar, em Calcutá. Tradução e edição de Inês Fonseca
«A Índia reclamar o estatuto de Super-potência é tão ridículo como a exigência de participar nas finais do Mundial de futebol, apenas porque tem uma bola. Sem atender ao facto de o país não se ter qualificado, de que nem jogam muito bem e nem temos uma equipa.»
ARUNDHATI ROY em The End of Imagination, DC Books, Kottayam-Kerala-Índia, p.36
«A política dominante sugere que para prevenir o Estado de se desintegrar, precisamos de uma causa nacional, e para além da nossa moeda (e, claro, da pobreza, iliteracia e eleições) nós não temos nenhuma. Esse é o centro da questão. É esta a estrada que nos conduziu à bomba. Esta procura de uma identidade. Se procurarmos uma saída, precisamos procurar algumas respostas honestas para perguntas incómodas.(...) Existe uma identidade Indiana? Precisamos verdadeiramente de uma? Quem é um indiano autêntico e quem não é? A Índia é indiana? Isso importa?»
ARUNDHATI ROY em The End of Imagination, DC Books, Kottayam-Kerala-Índia, p.37
«Entretanto, uma outra figura não-eleita, trazida ao poder por um golpe de estado, impõe com êxito a sua nova imagem: o General Pervez Musharraf, ditador militar do Paquistão, transformado pelos poderes mágicos dos media. Musharraf diz repetidamente que a ideia de que o povo pudesse votar nunca tinha passado pela sua cabeça; a sua aliança é com a comunidade internacional, o único parceiro que verdadeiramente lhe interessa na hora da verdade. Ontem, Musharraf era o melhor amigo dos seus vizinhos Taliban; hoje ele é "o valoroso líder liberal da modernização do Paquistão".»
EDUARDO GALEANO na crónica "The Upside-Down World", no jornal The Progressive de Junho 2002
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.