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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Entrevista a Eric Toussaint ’Asianizar’ o Fórum Social Mundial é um passo fundamental

abril de 2003 · Jornal · 1.731 palavras

Combate, abril e maio de 2003, edição em linha

Após 3 reuniões consecutivas bem sucedidas em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial (FSM) vai mudar-se para a Índia em 2004, e regressar ao Brasil em 2005. Uma mudança geográfica com implicações em termos de metodologia, participação e mesmo cultura política. Quase três meses depois da conclusão do terceiro FSM com a distância inestimável que esse tempo oferece, Eric Toussaint analisa o presente e o futuro deste processo em curso. Membro do Conselho Internacional do FSM, Director do Comité para o Cancelamento da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM), sediado em Bruxelas(*), Toussaint, um activista incansável por uma globalização diferente, é também um dos analistas políticos mais qualificados da Europa neste campo.

Uma análise retrospectiva do processo de Porto Alegre. O que é o FSM hoje?

Um acumular de experiências ricas que tornou possível que mais de doze mil participantes se encontrassem em 2001 e até cem mil nesta terceira reunião. Um processo que tornou possível a criação de uma dinâmica global inovadora. E, para além disso, uma implementação muito concreta desta dinâmica em vários continentes, particularmente na América do Sul e na Europa Ocidental, um pouco menos na Ásia e na América do Norte, e a um nível muito mais baixo, por enquanto, em África e na Europa de Leste.

"ASIANIZANDO" O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

O que pensa desta mudança para a Índia?

"Asianizar" o FSM é um passo fundamental. Mais de metade da população mundial vive na Ásia. Na sua maioria, as mudanças no mundo terão primeiro de decorrer neste continente. Não nos podemos esquecer que a Europa Ocidental e a América do Sul representam apenas 15% da população mundial.

Desde a sua concepção e até à data, o enfoque do FSM tem sido sobretudo europeu e latino-americano, o que influencia as suas características fundamentais. A mudança vai implicar uma mudança na forma como trabalhamos e nas pessoas que vão falar. A maioria dos participantes nas primeiras três reuniões foram os mesmos em cada vez, repetíamo-nos a nós mesmos. Debatemos e discutimos um conjunto de temas muito preciso (a dívida do Terceiro Mundo, água, globalização, meios de comunicação alternativos, o protesto contra a guerra, lutas das mulheres, soberania alimentar, etc). Esta mudança para a Índia vai trazer renovação dentro da continuidade. Uma nova forma de dirigir e debater assuntos. Com um elemento adicional muito importante: o alto nível que os movimentos sociais lá têm.

Não sabemos muito sobre esta dinâmica social

Há alguns movimentos sociais extraordinários. Organizações de camponeses de base com vários milhões de membros, sindicatos massivos (na indústria, nos serviços públicos e privados e no sector pesqueiro) constituídos por actores que têm estado mobilizados em torno de grandes questões ligadas à globalização das multinacionais. A luta dos camponeses Hindus contra o Acordo Multilateral de Investimento (AMI, alimentos geneticamente modificados, multinacionais como a Monsanto, ou contra projectos energéticos promovidos por multinacionais e pelo Banco Mundial, como os do rio Narmada. Estamos a falar de pessoas que tiveram de lidar com negligência criminosa da parte das multinacionais, como o caso da Union Carbide em Bhopal em 1984 onde mais de 15000 pessoas morreram devido a uma fuga de um gás tóxico.

A mudança para a Índia é assim um passo qualitativo no processo?

Acima de tudo a possibilidade de combinar experiências e implantar a dinâmica dos Fóruns nos movimentos sociais muito ricos que se estão a desenvolver em regiões sensíveis pelo mundo.

Uma questão que foi frequentemente colocada em Porto Alegre III: será que a Índia tem a capacidade organizativa para assegurar a continuidade deste processo?

Não podemos pedir que outros continentes façam melhor ou igual ao que foi conseguido no Fórum de Porto Alegre. Não nos podemos esquecer que começámos com doze mil participantes em 2001. Portanto seria normal, de facto não um mau resultado, começar com trinta mil participantes na Índia em 2004. o nível de infra-estruturas será diferente. Provavelmente, não teremos o apoio dos governos local ou nacional, como tivemos do Município de Porto Alegre e do governo do Estado do Rio Grande do Sul. Vamos ter de depender muito mais do trabalho e de redes de trabalho de activistas. E os participantes podem não se achar tão confortáveis como estavam habituados. Os organizadores do FSM na Índia decidiram não aceitar fundos de grandes fundações. A última reunião do FSM em Porto Alegre beneficiou de um apoio financeiro de cerca de meio milhão de dólares da Fundação Ford. Penso que este novo ponto de vista vai ser interessante, já que nos vais obrigar a trabalhar com uma infra-estrutura mais rudimentar. Não se esqueça que antes de Porto Alegre, os Zapatistas levaram a cabo uma das primeiras reuniões contra o neo-liberalismo e pela humanidade em Chiapas (México) em 1996, na meio da selva Lacandona. Esse foi um ponto de partida do processo muito rico e excitante.

Não duvido nem por um momento da capacidade dos nossos amigos Indianos para organizar um evento que vai assegurar intercâmbios entre os movimentos sociais. Um evento onde terão a possibilidade de decidir em conjunto a sua agenda futura e que vai reforçar a sua representação e coordenação. Vai se rum sucesso e vai fortalecer o FSM.

A NOVA FACE DO FSM

Um FSM que globaliza cada vez mais movimentos...

Sim! Mesmo mais importante que o 4º FSM em Janeiro ou Fevereiro de 2004 são todas as iniciativas e lutas que se avizinham em 2003: primeiro que tudo contra a guerra; contra a ALCA (Acordo de Livre Comércio das Américas), contra o GATS (General Agreement on Trade and Services), contra a OMC (Organização Mundial do Comércio); a favor da anulação da dívida; a favor da anulação dos acordos com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Todo o processo de preparação, com fóruns locais e continentais, é também mais importante que o FSM de 2004 em si mesmo. Vai reunir todas as iniciativas de cima a baixo, do local ao global, e mobilizar os movimentos cívicos. O FSM começou como um think tank, como uma alternativa a Davos e ao seu Fórum Económico. Nesta primeira fase, ninguém considerava mobilizar os movimentos cívicos. A ideia original era um fórum para debate. Em Porto Alegre III, sem modificar o conceito base, decidimos organizar um dia de protesto global contra o neo-liberalismo, contra a guerra, por outro mundo todos os anos durante o fórum de Davos. Estávamos a dar um passo em frente, com um significado que ninguém poderia ter imaginado.

Ninguém imaginava inicialmente que organizaríamos manifestações. A manifestação global massiva contra a guerra em Fevereiro de 2003 que, como toda a gente sabe não conseguiu travar a ameaça, mas ajudou a construir um poderoso movimento global contra a guerra, é um sinal muito significativo. Pela primeira vez, uma guerra vai ser ilegítima mesmo antes de começar. E esse é o resultado do Fórum Social Europeu em Florença e das manifestações dentro dos próprios EUA.

Estamos a viver um desses momentos excepcionais na história, como descrito por Gramsci. Um momento de descoberta, em que uma larga maioria de cidadãos caminham em direcção a um nível mais alto de consciência colectiva. Bush, Blair, Aznar e Berlusconi, entre outros, estão a revelar toda a hipocrisia, cinismo e inumanidade do sistema. Um grande número de indivíduos pelo mundo estão a ficar cada vez mais rapidamente politizados contra este sistema.

Outras manifestações muito importantes estão planeadas, por exemplo contra a cimeira do G8 em Evian-les-Bains, perto de Genebra, de 28 de Maio a 3 de Junho, onde estamos à espera de mais de cem mil manifestantes. E durante a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio em Cancun, México, em Setembro de 2003. Estamos a viver uma situação em que praticamente todos os meses são levadas a cabo iniciativas deste tipo.

Iria tão longe que dissesse que este processo de mobilização se deve todo a Porto Alegre?

Os protestos mundiais contra a guerra de 15 de Fevereiro de 2003 não teriam acontecido se não tivesse sido o papel do primeiro Fórum Social Europeu (FSE) em Florença, e Florença não teria decorrido se não tivesse sido o papel de Porto Alegre. Florença é onde a Europa reuniu, e depois transformou-se num protesto global. É claro que este é o resultado de processos convergentes que não começaram em 2001 em Porto Alegre. Mas esse tornar-se-ia o eixo unificador, uma dinâmica de auto-determinação crescente. Um processo sem limites. Devemos estar totalmente abertos a todas estas iniciativas em curso.

Abertos a uma nova lógica e cultura política?

Sim. Estamos a viver um processo centrípeto. Como muitos rios que correm em direcção ao oceano do movimento dos movimentos, onde o capitalismo e o patriarcado são encarados como dois sistemas que estão na raiz dos problemas mundiais.

O DESAFIO DE EXPANDIR O FSM

Mais uma vez, algumas secundárias, mas não menos reais, tensões foram aparentes em Porto Alegre, entre os movimentos sociais (que adoptaram a declaração final) e o próprio Fórum. Como analisa isto?

Penso que a influência relativa dos movimentos sociais, incluindo os sindicatos ou confederações sindicais tradicionais, aumentou dentro da dinâmica dos Fóruns. Estes movimentos estão a crescer em força, enquanto foram as ONGs e os meios de comunicação alternativos como o Le Monde Diplomatique que tiveram um papel fundamental na iniciativa original. Penso que esta tendência é muito positiva. Não há nenhuma justificação para impor esta abordagem em todas as outras organizações que vêem o seu lugar no FSM. Mas é muito encorajador que organizações com uma base social firme e que estão envolvidas em lutas reais, estejam a desempenhar um papel fundamental no movimento, sem marginalizar as outras. Para além disso, estou convencido que este processo pode e deve abraçar mais movimentos cívicos a nível mundial.

Sinto que um tipo de movimento dos movimentos está a ganhar força. Não é apenas a convergência ou o juntar dos movimentos, mas algo mais do que isso. Aqui não há uma liderança centralizada o que é bom. Não obstante, uma estrutura para o movimento dos movimentos está definitivamente a ganhar forma. Este facto é novo. No caso da Europa, temos de reconhecer que no último Novembro em Florença, testemunhou-se o nascimento de um movimento social europeu. Já tinha havido uma vaga de campanhas a nível continental (pela anulação da dívida, Marchas Europeias contra o desemprego, greves europeias como a greve dos caminhos-de-ferro, etc.). Mas nunca antes tinha atingido esta escala. E isso é simplesmente maravilhoso!

Entrevista de Sérgio Ferreri, traduzida por Inês Pereira

*Mais informações em http://www.cadtm.org/

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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