Em busca de novos paradigmas
Combate, outubro de 2002, edição em linha
Jornal2002Na actualidade a educação vive um momento particular, uma vez que nos encontramos numa fase de encerramento de um ciclo no que diz respeito ao papel da escola e às concepções sobre formação e educação, o que torna imperativo equacionar novos modelos educativos, numa perspectiva da refundação da escola e da implicação dos seus autores.
A ligação de causalidade existente entre as orientações político – estratégicas para os modos de produção e organização do mercado, e as orientações estratégicas para a educação significaram, ao longo das últimas décadas do século passado uma instrumentalização da escola enquanto agente prometedor de progressão social e elemento agregador de uma suposta identidade nacional. No nosso país, foi no período pós-25 de Abril que a educação foi colocada na agenda da transformação social, enquanto promessa de igualdade de oportunidade. Investiu-se no crescimento e na massificação.
Contudo, as transformações do sistema produtivo e a mercantilização das sociedades fizeram com que este modelo de escola rapidamente entrasse em descrédito. Hoje, a organização do mercado e do mundo empresarial requerem uma mão-de-obra com características definitivamente diversas do passado.
Enquanto no passado a identidade social dos indivíduos era definida pela sua actividade profissional, hoje essa construção de identidade é definida antes de mais, pelos bens de consumo de que tem propriedade.
Enquanto há trinta anos se esperava fidelidade e permanência de um trabalhador, hoje pede-se-lhe mobilidade e adaptabilidade entre campos de actividade diversos e a precaridade passou a ser dominante na relação laboral.
Enquanto no passado se pedia que um trabalhador fosse uma pequena peça na longa cadeia de montagem, hoje pede-se-lhe individualização e competitividade.
A tradução destas transformações na escola foi no sentido do esvaziamento do seu significado. Hoje à escola pede-se que seja fundamentalmente instrumento de reprodução das desigualdades sociais, ao mesmo tempo guarda e vigilante das crianças e dos jovens até que cresçam para ser mão-de-obra barata e pouco qualificada, e transmissora de uma cultura do individualismo e da competitividade.
O ministro David Justino tem cumprido adequadamente esta agenda da direita. O encerramento das escolas de menor frequência, o aumento do número de alunos por turma, o abandono dos pares pedagógicos no terceiro ciclo, o desinvestimento financeiro na educação, traduzem o percurso do embaratecimento da oferta do Estado.
Ao mesmo tempo o governo da direita aposta nos rankings enquanto instrumento de controle e regulação da escola.
A mera comparação da evolução da posição das escolas na tabela do ranking nacional, permite, em apenas dois anos, perceber a primeira consequência deste modelo normativo da avaliação: as escolas que no ano passado estavam no topo da tabela, mantêm, com oscilações insignificantes, as suas posições de topo, as escolas que estavam anteriormente no meio da tabela conhecem flutuações de quebra, significativas.
Esta é a evidência que resulta da mistificação de um conceito de democracia de acesso à informação. De facto a divulgação de dados, que se regem exclusivamente por critérios normativos em que os resultados de exame são o único referencial, impede uma discussão séria sobre os problemas do insucesso escolar e agrava o papel da escola enquanto reprodutora das diferenças sociais, pelo encerramento que produz dos círculos viciosos da exclusão.
Ao mesmo tempo, promove a competitividade como valor de fundo justificativo da função da escola. Quando a escola deveria ser o "ultimo reduto de resistência a este sem-sentido do mundo", traz-se o pior que o mundo tem para oferecer para dentro da escola, e agrava-se o sentimento de mal-estar dos jovens e dos adultos. Quanto mais a escola frustra as expectativas de todos os seus membros, mais insolúveis se tornam os problemas de disciplina e de aprendizagem e mais difícil se torna encontrar uma relação de causalidade entre a educação e a felicidade.
À esquerda estão hoje colocados desafios fundamentais em relação ao paradigma que pode reger a concepção sobre a organização da oferta educativa da escola.
Faz falta redesenhar uma escola que cumpra a função de promoção da democracia, não como as escolas a vivem hoje enquanto coisa formal que consta de muitos deveres e poucos direitos, mas enquanto realização da sociabilização dos indivíduos que se olham no conjunto das suas trajectórias e dos seus afectos.
Faz falta uma escola que reconheça e inclua as diversidades que nela se cruzam, e seja capaz de realizar a interacção entre culturas.
Faz falta uma escola da inovação, capaz de identificar as necessidades dos jovens e dos adultos face ao mercado de trabalho mas que não se submete às lógicas desse mercado nem admita a mercantilização das suas certificações.
Faz falta uma escola que abra o seu espaço a novos actores e sobretudo para os territórios sociais de que faz parte, comprometendo-se com a promoção da apropriação das armas do conhecimento e da participação, isto é como instrumento de emancipação.
Alda Macedo
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.