combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Contratempos

fevereiro de 2003 · Jornal · 1.088 palavras

Combate, fevereiro de 2003, edição em linha

Para onde fugiram as Cantigas?

Sandy Gageiro

O Festival «Cantigas do Maio» já se havia tornado o evento que inaugurava o Verão. Pelo menos, para alguns amantes da música tradicional. Significava partir no carro, comboio ou barco, a meio da tarde, até ao Seixal para ver uma peça de teatro na rua, comer um petisco olhando o rio e observar as muitas e diferentes pessoas que rumavam ao local.

Este ano teremos que começar o Verão noutro lugar, provavelmente bastante mais triste, porque o município do Seixal decidiu inviabilizar o Festival. O corte de 50% sobre os 160.000 euros foi uma surpresa para a organização que ainda tentou negociar um corte de 13%, sem resultados. A oferta da Câmara, assim, não consegue garantir a qualidade, diz a organização, a que o Festival habituou o público.

Recordamos que o «Cantigas do Maio» é filiado no European Forum of Worldwide Music Festivals, pioneiro no nosso país, e tem a responsabilidade de receber anualmente inúmeros jornalistas estrangeiros, para além de promover um salutar convívio entre a população do Seixal e os muitos espectadores que viajavam propositadamente para assistir e participar nas actividades espalhadas pela vila.

Um dos motivos que mais entristeceu a organização, segundo vários depoimentos dados à comunicação social, foi o do anúncio tardio da Câmara, a 19 de Dezembro, quando já tinham sido efectuados variadíssimos contactos com artistas e fornecedores para o evento.

A Associação José Afonso, responsável pela organização do Cantigas, tem recebido inúmeras manifestações de apoio a nível nacional e internacional, de cidadãos e organizações ligadas à cultura e à música, que se entristecem com o fim do Festival. Ao longo de 14 edições passaram por Portugal alguns dos mais interessantes projectos de música tradicional e de fusão, nacionais e internacionais, como Paco Ibañez (Espanha), Muzsikás e Ticiána Kazár(Hungria), Uxia(Galiza),Yungchen Lhamo(Tibete), La Bottine Souriante (Canadá), Brigadsa Vitor Jara (Portugal), que ocupavam alegremente o espaço da antiga Fábrica Mundet, dando outro sentido ao espaço.

Ao público resta desejar o regresso das Cantigas, mesmo que mais pequeno e pobre, mas obstinado, porque o importante é que «a banda continue a tocar»...

Contactos:

Associação José Afonso

www.aja.pt

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As gerações roubadas

Tiago Barbosa Ribeiro

Quase imperceptivelmente, um pouco como as histórias inacabadas, está em exibição nos cinemas «A Vedação». É uma película plana, baseada numa história verídica na Austrália dos anos 30, relatada no livro homónimo de Doris Pilkington. Com uma vertente documental que não entusiasma a crítica cinéfila, o realizador Phillip Noyce – australiano – aflora o confronto trágico entre a Austrália negra e a Austrália branca, numa temática cuja metáfora interior facilmente se transpõe para os nossos dias.

A história é simples. Entre 1905 e 1971, o governo australiano raptou milhares de crianças aborígenes mestiças das suas famílias, reeducando-as civilizacionalmente de acordo com o padrão ocidental. Molly, Gracie e Daisy são três dessas crianças. Recusando a imposição rácica de religião, língua e costumes, iniciam uma fuga pela sobrevivência – física, metafísica, social – até à sua terra natal.

Porém, a singeleza do filme contrasta com a necessária leitura política de uma consciência histórica que a Austrália ainda não digeriu na totalidade e que, a espaços, se ergue no mundo de hoje. Mais do que uma evocação eugénica ou a manifestação de uma «solução final», ecoa neste filme o prenúncio do duelo entre o «bem» e o mal «mal», a civilização contra a barbárie.

Assim, temos n´ «A Vedação» uma contemporaneidade arrojada para os tempos que correm. Como afirma Phillip Noyce, a personagem nuclear da sociedade branca é o retrato de um evangelista, catalisador de «um homem que mata com benevolência». Convencido de que tem a atitude correcta, dirige o terror da perseguição sem qualquer consciência de culpa, pois o objectivo «é o de salvar». A qualquer custo.

Molly Craig, uma das crianças sobreviventes, registou o fragmento de infância perdida: «A Polícia chegou e levou a Gracie, a Daisy e a mim. Colocaram-nos naquele local. Disseram-nos que não tínhamos mãe. Eu sabia que estavam errados. Fugimos. Um longo caminho até casa. Sabíamos que se encontrássemos a vedação, chegaríamos a casa.»

Colocando a arte ao serviço da consciência, Noyce obriga-nos, deste modo, a reflectir sobre todas as vedações.

A Vedação,

de Phillip Noyce

Breve tributo a Joe Strummer

António José André

Morria inesperadamente, no dia 22 de Dezembro, vítima de ataque cardíaco, Joe Strummer - vocalista, guitarrista e co-compositor da banda punk britânica "The Clash".

Ouvida aquela notícia, pairou alguma melancolia entre muita gente que partilhara e continua a percorrer os vários caminhos da dissidência contra a moderna sociedade capitalista. Ainda que relativamente tardio, aqui fica este breve tributo a Joe Strummer!

Formados nos anos 70, durante a época Tatcheriana, os Clash, fazendo parte do movimento punk, empenharam-se na intervenção política antifascista, antirracista e internacionalista.

Nascidos do encontro entre Joe Strummer, Mick Jones e Paul Somonon (depois juntou-se-lhes Terry Chimes) os Clash produziram um punk com muitas influências do reggae, do ska e do rock.

Lançaram o seu primeiro álbum The Clash em 1977. Seguiram-se mais cinco álbuns. No meu ponto de vista, os mais importantes são o duplo London Calling (1979) e o triplo Sandinista (1980).

Foram criadores de algumas das mais proeminentes músicas da história da indústria discográfica: "London Calling", "Should I Stay Or Should I Go", "This Is Not Free Europe", "The Magnificent Seven" ou "Rock The Casbah"...

Depois de acabado o projecto dos Clash, Strummer formou uma outra banda "Los Mescaleros", nos anos 90, onde mantinha a mesma frontalidade na denúncia deste mundo, onde os pobres são cada vez mais pobres e os ricos estão cada vez mais poderosos.

Além disso, Strummer ainda se meteu por outras andanças. Colaborou nalguns concertos dos irlandeses The Pogues (produzindo o álbum Hell’s Ditch) e participou no filme de Jim Jarmusch "Combóio Mistério" (sátira a alguns maneirismos do culto do rock’n’roll).

Nem a propósito, após tomar conhecimento da sua morte, o cantor Billy Bragg afirmara: "Num mundo de tanta superficialidade, Joe Strummer mantinha uma outra dignidade."

AGENDA

Cinema de animação

Na Associação Abril em Maio (Regueirão dos Anjos, 68, Lisboa) prossegue a iniciatva “Não É Cinema” com filmes e debates, sempre às segundas, 22h. Este mês, o ciclo é de cinema de animação:

17 Fev - Curtas e médias metragens dos primórdios da animação. Comentários: João Paulo Boléo.

24 Fev - Curtas experimentais de animação (Norman McLaren, Hans Richter, Len Lye e outros). Comentários: Fernando Galrito.

3 Março - Os anos 70 a 90 no cinema de animação (Nick Park, Caroline Leaf, Paul Driessen e outros). Comentários: Nuno Beato.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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