Brasil: os outros resultados do PT
Combate, outubro de 2002, edição em linha
Jornal2002É natural que as atenções sobre as eleições brasileiras se concentrem na disputa presidencial e no crescimento geral do partido. Mas é importante analisar os outros resultados, e chamar a atenção para algumas particularidades.
Os resultados do PT nas eleições para os demais cargos variam bastante. Mas podemos dizer que houve uma "onda PT", um pouco menos forte do que a "onda Lula", bem mais tardia: só se manifestou claramente nos últimos dias da campanha (e, às vezes, no próprio dia da eleição), período em que a "onda Lula" estacionou ou até recuou um pouco (uma vez que a previsão de vitória na primeira volta não se confirmou).
Nas eleições para governadores, houve diversas boas surpresas, com votações inesperadas de candidatos a governador do PT. A mais significativa aconteceu em São Paulo, onde o candidato do PT — José Genoino — teve mais de 32% dos votos válidos (maior percentagem já alcançada pelo partido em uma eleição no estado) e disputa pela primeira vez a segunda volta das eleições para governador, deixando fora o tradicional candidato da direita, Paulo Maluf.
Rio Grande do Sul
Há também, no entanto, alguns resultados preocupantes. No Rio Grande do Sul, cujo governo vinha sendo a principal vitrine do PT, Tarso Genro disputará a segunda volta, mas chegou em segundo lugar, com pouco mais de 37 % dos votos válidos. Em primeiro, com 41,2 %, chegou Germano Rigotto, do PMDB. Este último cresceu nas últimas semanas, beneficiando de ter sido pouco criticado pelos adversários numa campanha polarizada todo o tempo entre Tarso Genro e Antônio Britto (ex-governador, ex-PMDB, atualmente no PPS).
Um dos temas centrais dos adversários do PT foi a gestão do governador Olívio Dutra. A crítica principal que lhe foi dirigida foi a perda de empregos com a desistência da fábrica Ford de se instalar no estado, a partir da tentativa do governo de reduzir as benesses prometidas a ela pelo governo anterior (Britto). Houve uma clara dificuldade da defesa do governo do RS pelo candidato Tarso Genro, que disputou (e venceu) as primárias do partido contra Olívio. Parece claro que este facto complicou a campanha do PT.
Se a ascensão de Rigotto à primeira posição foi uma surpresa, o mesmo não se pode dizer da dificuldade da disputa do governo do estado, que já era esperada. Onde as disputas têm sido relativamente mais tranquilas é na prefeitura de Porto Alegre, que já está no quarto mandato do PT — não no governo do estado.
De fato, Olívio ganhou em 1998 na segunda volta, por uma margem pequena, e seu governo foi marcado por uma disputa permanente com os setores dominantes do estado e com os meios de comunicação que os representam (sobretudo o grupo RBS, que tem a principal emissora de TV — a representante local da Rede Globo — e o principal jornal do estado, a Zero Hora). Teve, também, problemas com a Assembleia Legislativa, maioritariamente conservadora. Em resumo, o governo Olívio esteve sempre sob o cerco da direita.
Por outro lado, teve também dificuldades no atendimento de reivindicações de sectores do funcionalismo público, e chegou a enfrentar uma greve importante do magistério no início do governo (esta questão foi melhor equacionada depois). Em nenhum momento, além disso, teve o consenso do PT (o que ficou claro na disputa com Tarso Genro pela indicação do candidato à sucessão).
É interessante registar que nas eleições para deputados, tanto federais como principalmente estaduais, os resultados foram bem mais favoráveis aos aliados do governador Olívio do que aos aliados do candidato Tarso.
De qualquer maneira, o PT do RS esteve todo mobilizado na disputa da primeira volta, e esta mobilização continuará na disputa da segunda volta. Embora Rigotto seja agora o favorito, a vitória de Tarso é perfeitamente possível.
Demais resultados
O PT elegeu na primeira volta dois governadores (Jorge Viana, do pequeno estado do Acre, que disputava a reeleição, e Wellington Dias, do Piauí, que foi apoiado pela principal liderança política do Estado, o ex-governador "Mão Santa", do PMDB, que havia sido cassado). O outro governador do PT eleito em 1998 (além de Jorge Viana, do Acre, e Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul), José Orcílio, do Mato Grosso do Sul, cuja eleição na primeira volta era dada como certa, terá de disputar a segunda volta com a candidata do PSDB.
Nenhuma das disputas por governos estaduais na segunda volta será fácil.
Nas eleições parlamentares, o PT cresceu muito, bem mais do que as pesquisas indicavam e os analistas em geral esperavam. Em 1998 elegeu 59 deputados; elegeu agora 91 (um crescimento de 54 %). Passou a ser o maior partido na Câmara Federal (com 17,7 % do total de 513 deputados). O crescimento no Senado foi maior ainda: o PT tinha 8 senadores, quatro eleitos em 1994 (os mandatos são de oito anos). Agora elegeu 10, passando a 14 senadores (e senadoras: a metade da bancada eleita agora é de mulheres, e somam-se à senadora Heloisa Helena, eleita em 1998, que tem mais quatro anos de mandato).
Nas Assembleias Legislativas estaduais, o PT passou a ser também o maior partido do país, com 147 deputados, subindo 63,3 % (tinha 90 deputados estaduais).
O Partido Liberal, coligado com o PT no plano federal e em diversos estados, que contava eleger uma grande bancada, beneficiando-se das condições eleitorais favoráveis desta aliança, cresceu pouco no plano federal quando seus novos eleitos são comparados com seus deputados atuais (tinha 22 deputados federais, nem todos eleitos pelo partido, e passou para 26). Mas quando os novos eleitos são comparados com os que ele elegeu em 1998, o PL teve um crescimento espetacular: passou de 12 para 26 deputados federais. Seus resultados também foram excelentes nas Assembleias Legislativas estaduais: passou de 44 para 61 parlamentares. E com a eleição de Lula, o PL espera novas adesões.
O terceiro partido da coligação, o PC do B (Partido Comunista do Brasil), havia eleito 7 deputados federais em 1998, chegou a 2002 com 10 deputados (com a posse de suplentes), e agora elegeu 12.
Os resultados da esquerda do PT
Finalmente, é interessante chamar a atenção para o facto de os resultados eleitorais da esquerda do PT terem sido muito bons, numa eleição em que ela teve de amargar uma linha nacional da qual discordava profundamente. Entre os 91 deputados federais eleitos pelo PT, 28 participaram das duas principais chapas da esquerda que disputaram as eleições internas do partido em 2001.
Doze dos deputados federais eleitos agora participaram na lista Um outro mundo é possível, um outro Brasil é urgente, impulsionada pela tendência Democracia Socialista (destes, seis são membros da tendência Democracia Socialista, e os outros participam de colectivos regionais de militantes, como a Esquerda Democrática do Rio Grande do Sul e a Resistência Socialista de Minas Gerais). Dos eleitos em 1998, seis participaram nesta lista, sendo quatro da tendência Democracia Socialista (outros três deputados ficaram como suplentes em 1998 e vieram a assumir o mandato posteriormente).
Assim, se tomamos como referência os eleitos em 1998, a lista Um outro mundo é possível, um outro Brasil é urgente teve o espectacular crescimento de 100%, e no interior dela a tendência Democracia Socialista teve um crescimento de 50%. Se tomamos como referência os parlamentares que exerciam o mandato no momento das eleições (isto é, se somamos os que foram eleitos como suplentes e assumiram depois), a lista passou de oito para doze deputados, ou seja, teve um crescimento de 50%. (Também agora há companheiros e companheiras que ficaram como suplentes e que podem vir a assumir o mandato). Além disso, a tendência Democracia Socialista, que já tinha a senadora Heloisa Helena, de Alagoas, elegeu agora a senadora Ana Júlia, pelo estado do Pará.
Dezasseis dos deputados federais eleitos agora participaram da chapa Socialismo ou Barbárie, que reuniu diversas correntes e coletivos da esquerda partidária. Destes, 7 são vinculados à tendência Articulação de Esquerda.
O Bloco de Esquerda, que foi constituído recentemente - reúne as tendências Força Socialista, Pólo de Esquerda (esta formada por antigos membros da Articulação de Esquerda do Rio Grande do Sul que apoiaram Tarso Genro na disputa interna), Movimento de Esquerda Socialista, Corrente Socialista dos Trabalhadores, Fórum Socialista e Refazendo - elegeu seis deputados federais: três da Força Socialista, e um de cada uma das correntes: MES, CST, Refazendo. Além disso, a nova senadora Serys, do Mato Grosso, também participou da chapa Socialismo ou Barbárie.
A esquerda do partido passa a representar, portanto, mais de 30 % dos deputados federais do PT, um percentual superior ao que tinha antes. De conjunto, teve um crescimento um pouco superior aos 54 % de crescimento do PT.
É importante notar, também, que nem todos os demais deputados federais e senadores são membros do chamado Campo Majoritário do PT; além de companheiros e companheiras que participaram de outras chapas em 2001, há também os que até agora não participaram das disputas internas ou que são independentes. Nos debates das bancadas federais do partido, a esquerda terá um peso muito importante.
Por outro lado, também deve ser lembrado que, sendo Lula presidente, a bancada do governo será bem maior do que a do PT. Certamente ultrapassará a maioria dos parlamentares, somando deputados de partidos considerados de esquerda ou centro-esquerda, de centro ou de centro-direita, e até de direita (caso do PL, que já está coligado com o PT no plano nacional; há outros parlamentares de direita que já anunciaram apoio a Lula).
São Paulo, 14-10-02
João Machado, militante petista e economista marxista. Membro da Coordenação Nacional da Tendência
Democracia Socialista (DS) do PT. Durante anos, foi membro da Direcção Nacional do PT, e do Conselho Editorial da revista Teoria e Debate. Integra a equipa de redacção de Em Tempo, publicação da DS.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.