Brasil: Depois da primeira volta
Internacional2009Se os resultados do P-SOL forem comparados com a situação actual (além da senadora Heloísa Helena, o P-SOL tem sete deputados federais e quatro deputados estaduais — todos eleitos pelo PT), houve um recuo. Mas se ele for avaliado à luz do facto de o P-SOL ainda estar em processo de organização como partido, não é um mau resultado. De modo geral, os resultados eleitorais do P-SOL confirmam que há no Brasil um espaço eleitoral (além de um espaço na luta social, naturalmente) para uma esquerda socialista, que não aceita o curso social-liberal do PT. Artigo de João Machado, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade
Ao contrário do que se esperava até poucos dias antes, Lula não foi reeleito na primeira volta nas eleições brasileiras de 1 de Outubro: deverá disputar a 2ª volta, no dia 29 de Outubro, com o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Segundo todos os comentários, houve duas questões que se combinaram para que a sua votação caísse: a repercussão do “escândalo do dossier”, e o facto de ele não ter comparecido ao debate entre os principais candidatos a presidente, realizado na maior rede de TV do país três dias antes das eleições (aliás, Lula não compareceu a nenhum dos debates realizados durante a campanha). O resultado da 2ª volta é incerto.
Por outro lado, o resultado geral das eleições foi um pouco melhor para o PT do que se esperava. Ele elegeu na 1ª volta quatro governadores, e um deles de um dos estados mais populosos (Bahia), e perdeu poucos deputados em relação à eleição de 2002 (83, contra 91 naquele ano). Além disso, grande parte dos deputados do PT que haviam sido denunciados como corruptos nos diversos escândalos conseguiu re-eleger-se.
De facto, diversos políticos considerados corruptos saíram-se bem. O deputado campeão de votos foi Paulo Maluf, talvez aquele que mais simboliza a figura do político corrupto no Brasil — teve 800 mil votos em São Paulo. O ex-presidente Collor, despedido por corrupção em 1992, elegeu-se senador pelo estado de Alagoas (onde sucederá à senadora Heloísa Helena!). Collor, aliás, declarou o seu apoio a Lula.
Na confusão política dominante, com a maior parte dos candidatos (de entre os quais os do PT e os do PSDB) defendendo propostas muito parecidas, o peso das “máquinas políticas” foi mais decisivo do que de costume. O espaço do voto ideológico foi reduzido.
É contra este pano de fundo que é preciso analisar os resultados do P-SOL e da Frente de Esquerda. Depois de ter chegado a 12% dos votos em sondagens no início do mês de Agosto, Heloísa Helena teve 6,85% (6,6 milhões de votos). Nas últimas semanas, a polarização entre as duas grandes máquinas políticas, a de Lula e a de Alckmin, que, além de mobilizarem recursos financeiros oficialmente centenas de vezes maiores, ocuparam quase todo o tempo dos programas eleitorais na TV e na rádio, reduziu seu espaço político.
De qualquer maneira, 6,85% é um resultado expressivo para uma candidata apontada sempre como “radical” e que concluiu a sua participação na eleição (no último debate entre os candidatos a presidente) dizendo que a razão da sua campanha era a decisão de manter o compromisso com o socialismo que havia sido abandonado pelo PT.
Além disso, alguns candidatos a governador do P-SOL, depois de terem sido quase ignorados pelos media ao longo da campanha, conseguiram um resultado eleitoral que deve ser considerado significativo (entre 2 e 5% dos votos). Nas eleições para deputados, o P-SOL foi o único partido da Frente de Esquerda que teve eleitos: três deputados federais, e três deputados estaduais. Se este resultado for comparado com a situação actual (além da senadora Heloísa Helena, o P-SOL tem sete deputados federais e quatro deputados estaduais — todos eleitos pelo PT), houve um recuo. Mas se ele for avaliado à luz do facto de o P-SOL ainda estar em processo de organização como partido, não é um mau resultado.
De modo geral, os resultados eleitorais do P-SOL confirmam que há no Brasil um espaço eleitoral (além de um espaço na luta social, naturalmente) para uma esquerda socialista, que não aceita o curso social-liberal do PT. Apesar da confusão política e despolitização cada vez mais estimuladas pelo governo Lula e pelo PT. Na disputa da 2ª volta entre Lula e Alckmin, o P-SOL não deverá apoiar nenhum dos dois candidatos.