Apelo dos Movimentos Sociais Não à guerra contra o Iraque!
Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Milhões de cidadãos europeus e do mundo inteiro expressam o seu repúdio por esta guerra. O apelo lançado pelos os movimentos sociais europeus em Florença e pelos movimentos sociais mundiais em Porto Alegre está a atingir dimensões extraordinárias.
Nós, membros do movimento social europeu, lançamos em todas as capitais da Europa esta mensagem comum.
A perspectiva de uma guerra contra o Iraque aproxima-se cada vez mais. Nós queremos impedi-la. Em qualquer dos casos não vamos ficar de braços cruzados.
A nossa resistência à guerra não começa, nem acaba, hoje. Nós garantimos que vamos continuar a dizer não à guerra em todos os países, com meios e formas diversas, tão globais e coordenadas quanto o possível.
Não queremos esta guerra. Ela pretende fazer-se passar por luta contra o terrorismo e contra um dos piores regimes do mundo, mas ela é a expressão de uma outra realidade: A sofrimento das populações civis do Iraque, a destabilização de toda uma região e a afirmação do domínio dos Estados Unidos da América.
Fazer a guerra contra o Iraque nunca teve como objectivo restabelecer a democracia neste país e acabar com o sofrimento das populações lá vivem. A cumplicidade, anterior, dos países ocidentais com o regime de Saddam Hussein, como a impunidade que gozaram, desde sempre, os seus dirigentes, atestam a duplicidade dos Estados Unidos e dos governos que apoiam esta guerra.
Os interesses geopolíticos da primeira potência mundial, os seus interesses económicos, nomeadamente petrolíferos, a sua concepção de um mundo regido por regras que os EUA definem de uma forma unilateral, são as verdadeiras razões desta guerra.
Mesmo que seja autorizada pelo Conselho de Segurança, este conflito não será menos ilegítimo. Se o Conselho de Segurança acabar por autorizar o recurso à força, cedendo às pressões dos EUA, isso não será mais do que dar um aspecto de legalidade formal a uma acção completamente contrária à Carta das Nações Unidas.
A ONU veria assim o seu papel ainda mais degradado, até porque ao mesmo tempo ela tolera outras violações dos direitos políticos, económicos, sociais e culturais em muitos outros países do mundo. A guerra contra o Iraque seria assim, um exemplo, mais, da famosa política dos "dois pesos e duas medidas", à qual parece rendida a "comunidade internacional".
Não é da guerra que os povos desta região, e do mundo, precisam. É do respeito pelos seus direitos. Só o relançamento de um processo de desarmamento mundial e regional e a resolução política dos conflitos que ensanguentam a zona, nomeadamente, através do reconhecimento dos direitos nacionais do povo palestiniano, como estipulam numerosas resoluções da ONU, pode solucionar a situação dramática que se vive na região. É um desenvolvimento mundial equilibrado e de um "outro mundo possível", que nós precisamos, muito mais do que do recurso à política da força e da guerra que pretendem impor os EUA.
É isto que dizem, hoje, a grande maioria das opiniões públicas de todo o mundo, quando manifestam a sua oposição à política dos EUA e dos seus oito aliados da União Europeia que quiseram prestar o seu tributo de subserviência. Três países deste continente dispõem de direito de veto no Conselho de Segurança. É, também, por isso que nós europeus temos uma responsabilidade imensa. É a nós que cabe fazer entender aos nossos governos a nossa recusa de caucionar esta guerra e a eventual participação da Europa. É a nós, cidadãos do mundo, que cabe dizer: não queremos esta guerra contra o Iraque!
Nós pedimos aos governos europeus, que dispõem do direito de veto, que o utilizem no Conselho de Segurança da ONU.
Nós pedimos a todos os parlamentares que se manifestem contra a guerra e a utilização por parte dos EUA de todas as bases militares e aéreas dos seus países.
Nós pedimos aos movimentos sociais, às organizações, às mulheres e homens da Europa toda de organizar uma resistência contra a guerra, com o objectivo de impedir e travar a guerra e a sua mecânica irracional de destruição.
Nós apelámos aos movimentos sociais, os sindicatos, os estudantes, as redes, os militantes, as mulheres e homens da Europa inteira que organizem a resistência à guerra e que parem, usando todos os meios possíveis, esta guerra.
APELO APROVADO NA ASSEMBLEIA EUROPEIA DE PREPARAÇÃO DO FÓRUM SOCIAL EUROPEU 2003 (REALIZADA A 8 E 9 DE FEVEREIRO, EM BRUXELAS) POR MAIS DE TREZENTOS REPRESENTANTES DE ORGANIZAÇÕES, MOVIMENTOS E FÓRUNS SOCIAIS NACIONAIS DE TODA A EUROPA.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.