A outra Europa
Fórum Social · Combate, outubro de 2002, edição em linha
Jornal2002O sucesso do Fórum Social Europeu (FSE), que se realiza em Florença a 7, 8 e 9 de Novembro, está garantido. Cerca de 20 mil sindicalistas, feministas, militantes associativos, activistas por outra globalização, representantes de organizações políticas vão debater, trocar, confrontar as suas experiências com o objectivo de ajudar ao surgimento de uma alternativa anti-capitalista à Europa liberal.
O FSE de Florença constitui um acontecimento político maior. Pela primeira vez numa escala destas, activistas com itinerários e experiências múltiplas vão encontrar-se durante três dias com o objectivo de encontrar respostas colectivas às políticas neo-conservadoras conduzidas no conjunto do continente europeu, seja na UE, seja na Rússia e nos seus antigos satélites. Por todo o lado esta política tem como característica o facto de colocar em causa as conquistas e direitos colectivos do mundo do trabalho: mercantilização do conjunto das actividades humanas, privatização dos serviços públicos, questionamento dos serviços de protecção social e reformas, acentuação das desigualdades e das discriminações, política securitária e repressiva, nomeadamente em relação às camadas juvenis e mais desfavorecidas, ordem moral. Uma resistência consequente e a preparação de uma contra-ofensiva dos explorados não podem ser eficazes se não forem à escala europeia. Vai tratar-se também, em Florença, de opor à construção europeia, às instituições actuais e às que se instalam na perspectiva do alargamento da União através da Convenção presidida por Giscard d’Estaing, uma alternativa democrática onde o direito dos povos a decidir seja garantido e onde as decisões sejam tomadas por eles. Finalmente, e esse é um dos desafios principais, o FSE deve dar o sinal para uma mobilização continental contra a guerra no Iraque.
Programa
As três manhãs do FSE serão consagradas a conferências, num total de dezoito, agrupadas em torno de três temas principais: globalização e neoliberalismo; guerra e paz; direitos, cidadania e democracia. As tardes serão reservadas a seminários organizados por grupos de associações, sindicatos, etc. Ao todo, estão previstos 150 seminários: nenhum aspecto da política liberal e das suas consequências escapará à atenção dos participantes.
Ao fim da tarde, das 18h às 20h, a jornada é encerrada com ‘diálogos’, ‘alternativas’ e ‘janelas sobre o mundo’. Olivier Besancenot, dirigente da LCR (secção francesa da IVÖ Internacional), participa no espaço de ‘diálogo’ entre movimentos sociais e partidos políticos, ao fim da tarde de sexta. A este programa juntam-se ainda, paralelamente aos seminários, os ateliers de debates livremente organizados.
Sábado à tarde, às 15 horas, tem lugar uma manifestação pelas ruas de Florença contra a guerra anunciada contra o Iraque e pelos direitos sociais. Esta manifestação será o culminar das actividades destes três dias, ficando o domingo reservado à assembleia dos movimentos sociais.
Mais uma vez, esta iniciativa é uma novidade considerável que deve frutificar nos próximos meses e anos, de múltiplas maneiras: construção de redes de coordenação europeia sindical e associativa; preparação do FSE’2003; construção de um movimento europeu contra a guerra…
Mas o Fórum é ainda mais do que isto: Tal como os fóruns sociais de Porto Alegre, é o ponto-de-encontro de um novo internacionalismo que esteve anestesiado durante dezenas de anos pela divisão do mundo em dois campos, nenhum dos quais oferecia um projecto emancipador. O FSE de Florença permitirá dar toda a sua credibilidade ao slogan das mobilizações contra a globalização capitalista: "um outro mundo é possível".
Léonce Aguirre, in Rouge
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.