A mobilização radical venceu Berlusconi
Internacional2011O referendo italiano de 12 e 13 de Junho rejeitou a energia nuclear, a privatização das águas e a imunidade dos governantes. Flavia d'Angeli e Emiliano Vitti, da Sinistra Crítica, dizem que este resultado provou que as propostas radicais também podem vencer.
Este resultado significa uma viragem histórica na situação política italiana. O voto popular pôs um ponto final no período Berlusconi. Ele é o campeão das políticas do mercado livre e por isso este resultado é também uma derrota para as políticas de privatização e o primado dos mercados sobre o bem comum. O slogan "As nossas vidas valem mais que os lucros deles" ganhou um verdadeiro sentido com os resultados deste referendo. Acabou uma fase. O Berlusconismo foi derrotado pela mobilização democrática através do processo referendário. É certo que os referendos fornecem de facto um enquadramento para uma forma de democracia directa.
É importante sublinhar o papel do sujeito político que antes faltava - os Comités pela Água Pública - que tiveram um papel decisivo, nalguns casos mesmo histórico. Trabalharam longe dos holofotes dos media mas angariaram o maior número de assinaturas de sempre para desencadear o referendo. Os Comités fizeram uma campanha baseada exclusiva e consistentemente na reivindicação política pela distribuição pública da água. Opuseram-se ao Partido Democrático (PD, o maior partido da oposição), que devia ouvir a clara mensagem expressa nos resultados das regiões "vermelhas" onde eles já privatizaram a distribuição de água. A Itália dos Valores (IdV, de Di Pietro) também se opôs aos Comités. Hoje estes dois partidos estão exultantes com os resultados. Nenhum representante dos Comités foi alguma vez convidado para qualquer programa de televisão. Esta vitória é a vitória deles. É um grande dia para os movimentos que fizeram campanha contra o poder esmagador do lucro e do dinheiro, como o do Não ao TGV. Todas as iniciativas para juntar estas campanhas num movimento unido - contra as incineradoras, as tarifas locais e os comboios de alta velocidade - serão bem-vindas e a Sinistra Critica irá trabalhar incansavelmente nesse sentido.
Esta vitória ensina-nos acerca da política dos partidos tradicionais e institucionais. A batalha foi ganha porque o povo se mobilizou, porque houve um trabalho apaixonado e radical nas comunidades e locais de trabalho, e porque os activistas puderam pegar num tema particular e construir uma estratégia. Ficou provado que as propostas radicais podem vencer. Emma Marcegaglia (presidente da confederação patronal) e todas as indústrias que esperavam fazer uma mortandade com a energia nuclear também perderam ao lado de Berlusconi. Claro que agora serão os mesmos a apostar no sector das energias renováveis! Uma esquerda claramente radical, anticapitalista e ecológica é possível e o seu papel não é o de se subordinar à trajectória seguida pelo PD e as outras forças do centro-esquerda.
O nosso projecto político estratégico conheceu agora um grande impulso.