combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

A guerra nos massa-media

novembro de 2003 · Jornal · 709 palavras

Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha

Do lado de cá vê-se a guerra na televisão, lê-se nos jornais ou ouve-se na rádio. Passada a guerra emotiva dos momentos iniciais, feita de avanços e recuos, de directos intermináveis quase sem conteúdo informativo, de jornalistas-soldado que repetem o que o Estado-Maior manda, começa a implacável ressaca mediática que costuma votar ao esquecimento os pós-guerra. Mas aqui a guerra começou depois da guerra ter acabado. A “resistência” iraquiana foi fazendo mossa e as baixas americanas são mais do que notas de rodapé dos telejornais. Tanto que os americanos pensam agora em sair mais cedo (feitos os negócios da reconstrução do Iraque, o novo poder que se amanhe) e que a guerra permanece nas agendas dos meios de comunicação social.

Mas a guerra também começou antes de ter começado e dessa batalha mediática dos argumentos sobre a necessidade ou não da intervenção militar americana no Iraque restam poucos ecos. O partido da guerra mais envergonhado ou desavergonhado relativamente ao frete sussurra as pálidas justificações de quem sabe que tem de manter a cara quando os factos o desmentem. Deixou de se falar em armas de destruição massiva, a pacificação do Iraque não aconteceu, a paz no Médio Oriente não é mais fácil agora. Nenhum dos seus argumentos se concretizou, mas também, realmente, quem dos editorialistas da guerra acreditava no que dizia? A guerra que começou antes da guerra só foi verdadeiramente morta pela guerra que continua depois do fim da guerra.

Ressuscitará sempre que algum Império queira ganhar a passividade das vontades para impor os seus conflitos.

E, ao contrário de noutras paragens, Durão e Portas saíram pouco chamuscados das mentiras que justificaram a guerra. O cinismo prevaleceu. Se houve mentiras não foram nossas, nós só acreditámos. Nós só estávamos à procura do lugar na foto dos senhores da guerra, tão desesperada quanto pateticamente. O pagamento do favor vem agora, a guerra tuga começa atrasada. Absolutamente desnecessárias na altura da invasão, as forças militares portuguesas são agora enviadas para o terreno, longe das áreas consideradas mais perigosas (por mais subjectivo que isso seja).

E fica a paródia da nossa guerra pequenina pelo olhar que os nossos media nos permitem. A resmunguice dos muitos cépticos que diziam que isto da guerra era só uma questão de massa materializou-se um pouco mais na televisão nacional. Foi a massa até agora a questão central da ajuda do governo português aos americanos. Por causa dela um importante conflito (medindo a importância pelo espaço televisivo) se estabeleceu logo à partida entre portugueses e italianos devido a divergências gastronómicas de fundo. Tão importante que foram desterrados depois disto. Felizmente os GNR não estavam em Bagdade ou Bush e o seu peru de plástico não teriam sobrevivido à fúria reivindicativa do bom garfo nacional.

O segundo conflito da GNR no Iraque, foi outra guerra de massa: o país quase ficou chocado (medindo o choque nacional pelas caretas dos jornalistas no local) com a notícia de que, como a missão não era no âmbito da ONU, então os descontos dos salários podiam estar a ser feitos e as contas bancárias dos semi-soldados da GNR a serem prejudicadas comparativamente a outras missões. Rapidamente a linha de comando esclareceu que os devidos descontos não estavam a ser feitos e que a situação era portanto “normal”. A rapidez desta acção impediu certamente a GNR de tomar medidas mais radicais. O povo iraquiano chegou a temer uma greve. Fica por saber se a questão dividiu o núcleo durão do governo português com Ferreira Leite tão preocupada com o deficit. O mínimo que se pode dizer é que a cobertura da guerra que os principais meios de comunicação social se preparavam para fazer era pastosa: os fait-divers do dia-a-dia dos soldados que nos arriscávamos a conhecer todos pelo nome, numa espécie de Big Brother só dificultado pela má vontade dos “nossos parceiros” de coligação militar.

No entanto, sob esta guerra de brincar uma outra decorre. E se o “24 Horas” avisa em letras garrafais que a primeira baixa portuguesa já se deu (regressou a casa com um furúnculo na perna, conhecida doença de guerra) entretanto os editorialistas da guerra já devem ter oleado o discurso nacionalista e a nova defesa da guerra caso haja alguma baixa real do lado português. Carlos Carujo

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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