A Economia Moral da Multidão
Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003José Neves«a relação que os vendedores profissionais dos serviços políticos (homens políticos, jornalistas políticos, etc.) mantêm com os seus clientes é sempre mediatizada, e determinada de modo mais ou menos completo, pela relação que eles mantêm com os seus concorrentes».
Pierre Bourdieu (1)
As pessoas são estúpidas(2). Este foi um pilar de boa parte da esquerda do século XX. Os tempos de crise que o fim de século espectacularmente anunciou, todavia, minaram-no. Desde logo porque, passado o milhão de controvérsias em busca da eficiência transformadora, o fracasso pareceu ser a palavra que melhor concluiu esse caminho intelectual. Os que imaginaram as pessoas como estúpidas – ou estupidificadas – depararam-se então com a sua própria "inconsequência", com a sua própria "ineficiência". Travaram-se perplexos com a sua própria "imaturidade" e com a sua própria "irracionalidade". Se calhar, duvidámos então, as pessoas não são estúpidas.
Vivemos tempos de crise que são tempos de caos que são tempos em que o tempo linear se estilhaça em mil pedaços. No campo dos movimentos sociais, como no campo das ideias, as soluções clássicas perdem a bruta força da suave rotina e as margens de ontem imigram novos centros.
Edward Palmer Thompson nasceu em 1924. Membro do Partido Comunista Britânico até 1956, figura principal do movimento pelo desarmamento nuclear nos anos 80 e culpado por uma refundação na historiografia contemporânea ao longo da sua vida. Desde logo, The Making Of The English Working Class (3)– um livro impulsionador de um processo redistributivo da razão, contra a historiografia que admitia a racionalidade apenas como propriedade das elites, mas também contra a política que à esquerda se construía a partir do complexo de superioridade racional.
Economia moral da multidão (4). Nenhum outro conceito expressará melhor o legado de Thompson. Convocada para o estudo dos chamados motins de subsistência que marcaram a Inglaterra do século XVIII, a fórmula não visa afirmar a existência de uma economia moral e de uma outra imoral. Procura, sim, mostrar que uma economia é um conjunto de valores (re)investidos em acto social.
O estudo dos motins de fome em Inglaterra, assim como de outros protestos sociais (com destaque para o luddismo – os destruidores de máquinas), era marcado, até à ruptura de Thompson, por uma historiografia que apenas reservava, aos que viveram aqueles anos de profundas mudanças sociais, um lugar no quadro estatístico das histórias económicas. Uma historiografia para a qual o protesto social era entendido como reflexo das condições económicas, reduzido à noção de espasmo e desprovido de motivações. A irracionalidade comandaria a vida dos que desesperados se rebelavam. As rebeliões tinham o epicentro marcado, o estômago.
Thompson resgata da "enorme condescendência da posteridade" os que viveram esses tempos de caos. Conclui que nas suas acções se joga uma noção de legitimidade, resultado de uma capitalização de costumes, de uma cultura e de um consenso comunitário. Nenhum estudo do protesto social poderia limitar-se, pois, a deduzi-lo a partir dos levantamentos estatísticos dos níveis quantitativos de vida. O protesto poderia até dançar ao mesmo ritmo que as taxas de mortalidade e as médias proteicas, mas não eram elas que necessariamente tutelavam o passo. A ideia de motim é questionada, criticada por remeter pelo seu próprio entendimento para o domínio do espontâneo, do irreflectido e do efémero. Contra a formulação do protesto como um mero motim, Thompson sonda todo um repertório de costumes e de práticas quotidianamente experimentado pela multidão. Apenas compreendido esse repertório se poderia interpretar os violentos conflitos que opuseram a multidão à nova economia política que surge com o florescimento dos mercados nacionais capitalistas. Esse enfrentamento radical só pode ser interpretado para lá do tempo épico do motim e, mesmo, para lá da análise dos motivos tout court; só pode ser compreendido para lá de uma análise fragmentária, isto é, através do estudo da tensão entre quotidianos contraditórios, na busca do que James Scott chamaria o registo escondido das formas de resistência (5).
Thompson trata de começar a pergunta onde os outros tinham concluído a resposta. O que fazem as pessoas quando têm fome, que costumes reinventam, que práticas refundam, que afirmações sublinham? Das respostas a estas perguntas, Thompson vai concluindo que o motim não é necessariamente um acto desesperado – e portanto irreflectido, irracional e bárbaro – mas possivelmente uma alternativa que se constrói, um acto desenfreado (mas) também de esperança (6).
O Espectro. Carros que transportam cereais para fora da localidade em tempo de escassez, na busca de uma maior taxa de lucro, são bloqueados pela acção da multidão que muitas vezes fixava o "preço certo" sobre aqueles bens. A multidão, que rapidamente se organizava em função do rumor e do mexerico ou do chamamento do tambor, tecia-se em redes sociais as mais diversas – do pub e do mercado local à casa religiosa.
A multidão que protagonizou o protesto social pré-industrial foi sistematicamente tida pela sua inconsequência. Essa foi a imagem que a historiografia liberal e a historiografia marxista dominante dela produziram, essa foi a imagem que o vanguardismo marxista-leninista fabricou, reivindicando para si o monopólio da consequência. E, no entanto, mostra Thompson, os efeitos de uma acção particular como um motim numa determinada localidade produziam efeitos a quilómetros de distância. O medo propagava-se junto de açambarcadores e de especuladores e as autoridades eram intimadas. O motim era uma ameaça ao mercado capitalista global que ascendia então. Ele não começava na fome e não acabava com o enganar do estômago. Como alguém escreveria em meados do século XIX, paira um espectro...
De regresso ao início. As pessoas não são estúpidas. Ou seja, a acção histórica é uma possibilidade e, como tal, não se pode apenas deduzir das estruturas históricas. Nenhum quadro estatístico pode explicar as lógicas do protesto social. Porque a multidão não é um dado objectivo, mas é um poder constituinte que constrói e se constrói numa economia moral.
A ruptura de Thompson abalou os fundamentos da historiografia liberal como abalou a historiografia marxista dominante. Ambas definiam os motins de fome como apolíticos, da ordem do primário e do espontâneo. Ambas as tradições historiográficas não consideravam a hipótese de um agente histórico "consequente" e "racional" da parte dos oprimidos (os subalternos) antes da Revolução Francesa. Apenas a partir de então, com o surgimento do povo – dotado de moralidade e de racionalidade – a história estava em condições de ser feita pelos mesmos que ela condicionava. A liberdade chegava, para os liberais, apenas com a Revolução Francesa. Para os marxistas dominantes, a potencialidade ou a possibilidade da liberdade chegavam apenas com a Revolução Francesa, grávida dos amanhãs que cantariam. Em ambos os casos, a história só avança decisivamente em direcção à liberdade com a Revolução Francesa. A principal diferença entre ambas as tradições estava no lugar de chefe-de-fila: para uns a burguesia, para outros a necessária substituição desta por um proletariado. Ou melhor, a substituição da burguesia por um proletariado imaginado estúpido o suficiente para necessitar de um chefe-de-fila internalizado, isto é, os partidos de Lenine, portadores da razão científica da transformação, elemento vindo de fora do conflito económico. Para o marxismo-leninismo, o proletariado sempre teve e terá razão, mesmo que disso não se realize; ou seja, o proletariado tem e terá razão mas não tem a razão de fazer valer a razão que tem. Ora, nesta ideia marxista-leninista da consciência política vinda de fora do conflito económico residirá a ideia da impossibilidade auto-libertadora do operário, imaginado como mais um filho do sistema de produção, factor entre factores, das mercadorias às máquinas. Trata-se, na ideia marxista-leninista, do operário imaginado na estaca zero a partir da revolução industrial, desprovido de um património e de uma cultura de protesto e de alternativa, incapaz de especular novos mundos e, como tal, útil no sentido em que seria um meio para a sua própria libertação, mas não seria a sua própria libertação.
Historiadores Marxistas Britânicos (7). O brilhantismo dos historiadores marxistas britânicos contribuiu para destituir a hegemonia da história economicista e uma certa deriva estruturalista (diria Thompson que a história não é uma fábrica para a manufactura da Grande Teoria). Maurice Dobb ou Cristopher Hill; Raymond Williams ou figuras herdeiras de uma certa tradição, como George Rudé e Eugene Genovese. E mais notoriamente Eric Hobsbawm. Todos enfrentaram a dicotomia infraestrutura/super-estrutura procurando superar a interpretação linear da metáfora de Marx. A fragilização dessa dicotomia é uma linha que as ciências sociais têm explorado das mais diversas formas, muitas vezes dando origem a uma reconfiguração das geografias disciplinares que infelizmente esquece a "indisciplina" de Thompson, ele que afirmava que os três níveis relativamente autónomos – o económico, o político e o ideológico – representavam uma selecção arbitrária de categorias que meramente reproduzia as categorias standard (burguesas) da academia.
Após a sua saída do Partido Comunista Britânico, na crítica da intervenção soviética na Hungria em 1956, Thompson também não escolherá entre a herança de Stalin e a novidade de Marcuse ou de Althusser. Se a velha esquerda, a esquerda dos partidos de Lenine, se sustenta no marxismo-leninismo e no pressuposto de que a classe trabalhadora tem uma existência objectiva a partir da qual caberia ao partido deduzir, por introdução de componentes organizativas e políticas, a verdadeira consciência de classe – como se a ruptura se pudesse limitar a ser quantitativa e como se não houvesse necessidade da razão especulativa; a nova esquerda, sustentada em figuras intelectuais e movimentos culturais diversos, céptica perante a dualidade de um mundo em que antes tomara um partido que agora a desiludira amargamente, essa nova esquerda considerava a classe operária como não tendo uma consciência subjectiva própria, pois que estava inevitavelmente presa aos mecanismos e às redes de produção de sentido do capitalismo e das suas indústrias culturais – como se a ruptura, por ter que ser qualitativa, apenas fosse possível a partir de fora dessa classe operária. Os primeiros propunham-se falar em nome de uma classe operária que julgavam funcionalmente afónica. Os segundos em nome de uma classe que julgavam em consumida rouquidão.
Em ambos os casos não havia espaço para a consideração da experiência. A consequência dessa desconsideração era dupla. Por um lado, e desde logo, entendia-se a classe operária estupidificada e não se percebia a possibilidade de mudança que a diversidade da experiência consigo transportava. Paralelamente, e por outro lado, a velha e a nova esquerda nunca trabalhariam sobre possibilidades históricas do presente, sobre o campo do imanente. A primeira negou-as entendendo o presente apenas como campo da potencialidade e da necessidade, estádio secundário a caminho do futuro. A segunda negou-as entendendo o presente como campo da impossibilidade. Em ambos os casos – vanguarda leninista e intelectualidade crítica ocidental – estava facilitado o campo para o substicionismo da classe operária. Estudantes universitários ou engenheiros de almas, dirigentes partidários ou prestigiados intelectuais – todos racionalizariam as razões que a classe operária teria.
O que Thompson reivindicou sempre, na análise historiográfica e consequentemente na proposta política, foi o lugar da experiência. Por isso viajou pelos fenómenos religiosos, perscrutou as redes de sociabilidade, avaliou as tradições reinventadas, enfim, valorizou a experiência rompendo com a direcção estatocentrista dominante na abordagem da história social. Imaginou o poder para lá do estado e imaginou a consequência do protesto social para lá da tomada do poder do estado. Imaginou o protesto social para lá da consequência. Imaginou a economia para lá dos dados quantitativos, tornando-a parceira promíscua da cultura. Encontrou o político para lá do conflito codificado pela história política, o tempo para lá do tempo do épico. Encontrou a pluralidade das classes operárias e o vigor do conceito de multidão sem prejuízo da consideração das experiências comuns. Rejeitou a história e a sociologia que não se indissociaram das teorias da modernização e que assim tenderam a reduzir o conflito de classes a um mero distúrbio, espécie de dano colateral. Perturbou o estudo da época contemporânea, até então baseado no estudo da Revolução Industrial como processo de melhoria da quantidade de vida, aferida pelos índices das transformações económico-científicas. No seu conceito de economia moral retomou a inspiração de Marx, centrando no modo de produção a formulação das interrogações historiográficas, mas encontrando todos os campos antes separados: cultura, economia e ideologia. Em Thompson, o modo de produção é o modo de reprodução e vice-versa. Por isso se indignava respondendo à esmagadora maioria dos estudos sobre a Revolução Industrial:
«em 1840, a maior parte das pessoas estava "melhor" do que os seus antecessores 50 anos antes, mas eles haviam sofrido e continuaram a sofrer essa ligeira melhoria como uma experiência catastrófica» .(8)
O tempo é o ponto de unidade entre super e infraestrutura, entre produção e reprodução, entre quantidade e qualidade, entre trabalho e vida. A introdução abrupta do novo tempo da nova economia política, com a hegemonização da time orientation em prejuízo da task orientation, constitui então o coração do conflito social. A ideologia do trabalho e a sua nova ética estabelecem-se e, como mostraria o século XX, colonizam as vozes políticas que afirmam representar os que antes a contestaram – a multidão, o proletariado e o operariado fazem-se homenzinhos: trabalhadores.
Da Derrota da Acção Indirecta. Os anos 60 são ponto de encontro de vários desencontros. Nas ciências sociais, a constatação das inúmeras bifurcações e desilusões que marcam a relação entre os movimentos emergentes e os clássicos quadros instituicionais – no campo do sistema como no campo anti-sistémico – convida a uma reconfiguração da noção de política, agora desapropriada da exclusividade do Estado. O protesto deixa de ter como centro de interpretação normativa esse lugar do poder das elites. A crítica de E.P.Thompson é fundadora dessa refundação, interrogando a tradição intelectual no seu esforço de irracionalização do outro interior – desprovido de moral – e do outro exterior – moralmente culturalizado. Como escreveu Thompson,
«O que é quiçá motivo de surpresa é o clima intelectual-esquizóide que permite a esta historiografia quantitativa coexistir, nos mesmos lugares e às vezes nas mesmas mentes, com uma antropologia social que deriva de Durkheim, Weber ou Malinowski. Conhecemos muito bem tudo o que está relacionado com o delicado tecido das normas sociais e das reciprocidades que regulam a vida dos ilhéus de Trobriand e, também, as energias psíquicas envolvidas nos conteúdos dos cultos da Melanésia; mas, em nenhum momento, esta criatura social infinitamente complexa, o homem melanésio, converte-se no mineiro inglês do século XVIII que golpeia as suas mãos espasmodicamente sobre o seu estômago e responde a estímulos económicos elementares» .(9)
A derrota é o nome da esquerda no fim do século XX e é neste tempo que os derrotados de ontem recuperam um charme discreto. Os que viveram constantemente na derrota jogam agora em casa. Por uma questão de hábito – tratam-se de pensamentos de crise. Por uma questão de mercado – as ideias clássicas subitamente perdem a validade da promessa futura. É a oportunidade de Benjamin, de Gramsci, de Trotsky, de Debord ou da tradição anarquista. E também de Thompson. Contrariamente ao que sucedeu com a historiografia ocidental marxista-leninista – desde logo o caso francês –, em que a relevância do partido comunista nacional fez dele uma parte decisiva da modernização política do estado-nação respectivo e assim levou a que a dimensão da imaginação nacional das historiografias, bem como a forte valorização dos tópicos mui leninistas da estratégia do político, se afirmassem como centrais; no caso britânico, desde logo com o apagado papel do marxismo político-partidário, isso não sucedeu.
No tempo de caos e de derrota de hoje, Thompson é uma resposta contra os que procuram irracionalizar o novo protesto global anticapitalista, ora considerando-o amoral – mera dor de crescimento do processo histórico –, ora considerando-o culturalisticamente – retomando-se a estafada crítica pequeno-operária da pequena-burguesia e do infantilismo. Por outro lado, a crítica do acontecimento e da acção directa são desafiadas em Thompson pela análise da complexidade do protesto social e das formas de resistência. Da pré-modernidade à pós-modernidade, vários protestos populares constituem-se como acções directas ao centro do capitalismo. Na Inglaterra do século XVII ou no Império do século XX.
José Neves
(1) Pierre Bourdieu, O Poder Simbólico, Difel, Lisboa, 2001; p.177.
(2) Estúpido – adj. que não tem inteligência suficiente ou delicadeza de sentimentos. Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, Porto.
(3)E.P.Thompson, The Making of the English Working Class, 1963. Existem várias edições disponíveis. Não existe nenhuma edição portuguesa.
(4) O primeiro registo de utilização da expressão economia moral data de 1837 e deve-se a uma intervenção pública do dirigente cartista britânico Bronterre O’Brien.
(5) James Scott, Weapons of the Weak – Everyday Forms of Peasant Resistance, Yale University Press, New Haven e Londres, 1985.
(6) Nos seus trabalhos sobre a fome, Amartya Sem mostraria como o protesto não ocorre a partir do momento em que se ultrapassa um certo limiar mínimo de fome, ou seja, o protesto ocorre quando ainda coabita com a esperança.
(7) Sobre os historiadores marxistas britânicos existe vária bibliografia. Destaque-se a obra: Harvey J.Kaye, The British Marxist Historians, St.Martin’s Press, NY, 1995 ~(1984). E também a recente autobiografia de Eric Hobsbawm, disponível em livrarias de Lisboa: Eric Hobsbawm, Interesting Times – A Twentith-Century Life, Allen Lane, Londres, 2002.
(8) E.P.Thompson, The Making Of The English Working Class, Penguin Books, Londres, p.231.
(9) E.P.Thompson, «La Economia "Moral" de la Multitud en la Inglaterra del Siglo XVIII», em E.P. Thompson, Costumbres en Común, Critica, Barcelona, 1995, pp.215-216. Neste volume que junta vários textos de E.P.Thompson encontram-se vários dos seus textos mais importantes. O volume tem uma edição brasileira. Saliente-se ainda o ensaio anti-althusseriano: E.P.Thompson, The Poverty of Theory: Or an Orrery of errors, Merlin Press, Londres, 1978.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.