Resposta à Ruptura/Fer: Um mau pretexto para anunciar a Ruptura com o Bloco de esquerda
Bloco e APSR2008“Para se conhecerem as cobras, o melhor é deitar fogo ao mato”
(Provérbio timorense)
Publicou-se neste site uma curta nota de polémica que argumentava que, em 1999 como em 2006, a Ruptura/Fer tomou posições contrárias à independência de Timor. Esta organização respondeu com um longuíssimo texto furioso de dez páginas sob o título saboroso de “A APSR mente para esconder a sua capitulação e a do Bloco de Esquerda ao imperalismo”. A polémica poderia ficar por aqui porque este título diz tudo. Trata-se de um texto de anúncio da ruptura com o Bloco de Esquerda, movimento que capitula “ao imperialismo”. Diz mesmo o texto que essa “capitulação” é repetida. Evidentemente, quem assim pensa não pode ficar num movimento cuja função é ajudar o imperialismo a enganar os povos. Não existe nenhuma outra atitude coerente senão fazer o seu próprio caminho, longe da organização pró-imperialista. Afinal, foi sempre assim que pensou e procedeu a Ruptura/Fer, que no passado já esteve no PSR e saiu, já esteve no POUS e saiu, já fez uma aliança com a Política Operária e saiu, sem dúvida porque todas estas organizações “capitularam”, como agora aconteceria com o Bloco.
Há no entanto um aspecto deste texto que merece alguma reflexão, que revela a génese e a lógica intelectual do sectarismo.
Ao discutirmos a argumentação da Fer – o Bloco é pró-imperialista e é um obstáculo às lutas dos trabalhadores – discutimos as razões do delírio sectário. É o que se faz a seguir. Advertimos o leitor de que o texto da Ruptura/Fer tem muito mais: copiosos insultos pessoais, afirmações desvairadas de todo o tipo – mas isso faz parte de políticas pequeninas com poucos argumentos, a que não responderemos, porque é pura perda de tempo.
A política não é uma charada de citações
A primeira questão relevante diz respeito ao pretexto de Timor. O texto deste site apresentava três argumentos contra uma posição da LIT: (1) a LIT (organização internacional de que faz parte a Ruptura/Fer) insultava o PST de Timor, (2) a LIT tinha -se oposto à independência de Timor em 1999, e (3) a posição da Ruptura/Fer em 2006 era de apoio cordato ao golpe de Estado promovido pela Austrália. Mantemos exactamente os três argumentos.
O PST timorense foi apresentado como uma organização trotsquista, o que não tem sentido. Foi escrito que estava no governo, o que é falso. Quem escreveu o texto da LIT não sabe do que escreve. Ao reconhecer implicitamente este e outros fracassos – escrever acerca do que não se sabe – o texto da Fer apresenta aliás uma justificação muito curiosa: talvez “nos tenhamos equivocado em algo, no plano analítico e de interpretação, sobre o que estava a ocorrer em Timor naqueles dias, mas acertamos na política”. É curiosa a ideia de que se “acerta” na política, como se fosse um concurso de tiro ao alvo e uma questão de sorte. É assim o sectário puro: se não sabe, dispara para ver se acerta.
A outra polémica, sobre 1999, revela exactamente o mesmo traço do sectário puro. A LIT conclamou as massas timorenses a resistirem militarmente contra a “invasão imperialista” representada pela chegada das tropas da ONU – a pedido da Fretilin e para garantirem o respeito pelo referendo que aprovara por enorme maioria a independência de Timor. Ainda há pouco tempo, numa escola de Verão do Bloco, um dirigente da Fer se levantou para denunciar a vergonha que tinha sido a aceitação pela esquerda portuguesa dessa “invasão” pela ONU. Talvez se lembre da resposta de Tariq Ali, que desfez este argumento rocambolesco. Diz agora o texto da Fer: apesar disso, defendíamos a independência, vejam-se estes comunicados em que estava escrita essa palavra de ordem…
O sectário pensa que um comunicado com uma palavra de ordem é fazer política. Não lhe importa como influenciar as pessoas ou determinar os acontecimentos, mas sim a palavra de ordem. Não cuida da relação das forças nem da luta social, mas do comunicado que ninguém leu. O sectário acha que a política é uma brincadeira de comunicados e uma charada de citações. Ora, a política não mora nesse mundo fantasioso do sectário.
A política são escolhas concretas: depois do referendo (promovido com o apoio da ONU e que decidiu a independência), as tropas indonésias e as milícias fascistas desencadearam um massacre contra a população. O movimento de solidariedade internacional exigiu que a ONU interviesse permitindo eleições livres e forçando a retirada dos ocupantes e assassinos. Era a única esperança possível para aquele povo. A Fretilin fez bem em exigir, em desespero de causa, essa intervenção. A intervenção da ONU foi uma conquista do movimento popular timorense e da solidariedade internacional – será preciso lembrar ao sectário que os Estados Unidos, a Rússia, a China, Cuba e quase todos os países europeus apoiavam a integração de Timor na Indonésia e portanto recusavam a independência, e que foi contra esta integração de vinte e cinco anos que se declarou a independência?
No mundo verdadeiro da política, apelar à resistência militar contra a “invasão da ONU” era recusar a independência de Timor e apoiar as milícias Aitarak e as tropas indonésias. Naturalmente, não seria a Fretilin quem iria cumprir a “palavra de ordem” da LIT: resistir militarmente para derrotar o invasor da ONU. Só lá estavam as tropas indonésias e as milícias fascistas para tal ataque ao imperialismo. A LIT sabia e achou normal tirar essa consequência, exactamente como, noutras circunstâncias, achou que os talibans deviam ser militarmente apoiados e que os revolucionários paquistaneses se deviam colocar ao ser serviço (ver debate entre a LIT e os revolucionários paquistaneses, aqui).
Em 2006, a Fer repetiu a mesma lógica política: o seu comunicado interpreta a revolta dos militares chefiados pelo major Alfredo Reinado como a voz da plebe contra os governantes corrompidos pelo dinheiro do petróleo. A GNR, neste contexto, ia para Timor para massacrar este povo às ordens dos governantes corruptos: ia “impor a paz dos cemitérios”, escrevia a Fer.
Curioso. A revolta começou dois dias depois de o governo Alkatiri ter rejeitado a concessão de petróleo aos australianos. A revolta militar foi dirigida por um agente australiano – o major Reinado – e manobrada politicamente por Ramos Horta, o homem dos Estados Unidos. Derrubar Alkatiri era o seu objectivo e foi o que conseguiram.
Talvez “nos tenhamos equivocado em algo” diz agora a Fer, mas, claro, “acertamos” na política. Nem isso: apoiar o golpe de Estado australiano é recusar a independência de Timor, e essa era e é a escolha política concreta que importa.
O Bloco é um movimento de esquerda?
Mas o aspecto mais importante do texto da Ruptura/Fer não tem sequer que ver com Timor.
Como os textos dos congressos da Ruptura/Fer são secretos e as suas conclusões são clandestinas, este é o primeiro texto que revela precisamente o que pensa do Bloco, pela interposta acusação ao PSR do pior dos crimes: o PSR, imagine-se, “acredita piamente que o Bloco será a direcção dos trabalhadores na luta social pela construção do socialismo”. Confessamo-nos culpados: o Bloco foi mesmo construído para ser uma nova direcção, para vencer a esquerda reformista e social-democrata, para substituir o PS e o PCP na confiança dos trabalhadores, para dirigir a luta pelo socialismo. Essa é a sua força e é isso que tem provado – em 1999 na luta pela independência de Timor, em 2001 quando da guerra do Afeganistão, desde 2003 em resposta à guerra do Iraque, contra todos os governos PS como PSD-CDS e as suas políticas anti-populares, na luta das empresas, no desenvolvimento de confrontos políticos em todas as dimensões. O Bloco venceu até agora porque provou ser essa direcção.
O Bloco juntou uma parte importante do movimento de trabalhadores e jovens que rejeita a política do PS e do PCP e que quer construir uma alternativa.
É uma prova de profundo desprezo pela militância do Bloco considerar que estas pessoas não sabem o que fazem ou não fazem o que querem. Quem constrói o Bloco juntou-se-lhe (com a excepção evidente de qualquer organização clandestina que entre para sair do Bloco) precisamente porque sabe que a nova esquerda é essa força de confiança.
Mas o sectário não pode aceitar esta realidade. Detesta uma organização aberta, um movimento plural, uma força social de intervenção. Para o sectário, o que é preciso não é política mas sim monolitismo ideológico. O sectário abomina as ideias e adora as certezas. Recusa a luta pela maioria – sintam o desprezo com que a Fer escreve sobre “maiorias sociais conquistadas pelo voto”, embora não se atreva a dizer que um movimento revolucionário deve recusar as eleições. O sectário fica sempre a meio caminho.
De facto, o texto da Fer levanta uma questão decisiva: se o Bloco, além de pró-imperialista, não é (nem nesse caso podia ser) uma direcção para a luta socialista dos trabalhadores, então quem é essa direcção? Perguntar é responder: essa direcção é a Fer. Aqui está o sectário no seu estado puro. Importa que a Fer nunca tenha dirigido uma luta de trabalhadores, que não seja reconhecida por eles, que não os represente? Não. Os seus dirigentes, como os do MRPP e os do POUS, acham que estão investidos de um destino histórico, mesmo que ninguém nunca tenha dado por isso. São eles e só eles, e só com a sua pureza ideológica é que haverá esquerda.
Tudo isto seria divertido, se não levasse um grupo de militantes a abdicar de qualquer intervenção política, a disfarçar as suas posições, a fazer da artimanha e da mentira uma forma de política. Por isso, saudamos o texto da Fer, porque agora fica tudo claro: desta vez, no entanto, o sectário foi um pouco longe de mais. Pois escreve o texto da Fer que, além de “capitular ao imperialismo” e à ONU, o Bloco capitula também “à democracia e à cidadania”.
Curioso, mais uma vez. Até hoje, a Fer votou todas as resoluções das convenções do Bloco. Votou, apesar de discordar delas – era um truque. Porque em todos esses textos o Bloco defende o socialismo como fim da exploração e como emancipação social e portanto como o regime do pluralismo político, da liberdade de imprensa e, imagine-se, de greve e de acção social. É a isso que a Fer chama de capitulação “à democracia”. Capitulação que aprovou no passado e que agora detesta.
Quer isto dizer que a Fer acha que se pode disputar a luta política numa sociedade europeia do século XXI sem disputar as eleições? Mistério. Quer dizer que aceita as eleições, mas acha que a orientação do Bloco tem sido errada? Decerto que não, porque a Fer votou todas as plataformas eleitorais do Bloco sem excepção. Seria também a fingir?
Mas em qualquer caso, fica a pergunta: qual é a alternativa a esta capitulação? Muito simples: recusar a democracia, isto é, a defesa do socialismo como o regime de partido único, o que implica a censura e a polícia política. Muito parecido com a China e com a Coreia do Norte, claro está, mas em vez dos velhos PCs ao leme, quem teríamos?
O raciocínio, a política, a ideologia é tão absurda, tão claramente anti-marxista, tão contrária a toda a luta dos socialistas dos séculos XX e XXI, que podemos perceber porque é que só é dita por meias palavras. Mas tanto basta para se perceber a razão mais profunda para a rejeição da Fer em relação ao Bloco: o seu pluralismo político ofende o sectário, que não tolera tal fraqueza, o seu socialismo incomoda o sectário, que não percebe que para se fazer parte da luta dos trabalhadores é preciso construir uma força social.
Além desta razão de fundo, há no entanto outra ainda para esta emergência do sectarismo mais agressivo que procura proibir o debate – é essa a função das “caracterizações” definitivas sobre o Bloco como pró-imperialista – e é muito evidente: muitos militantes da Fer têm sido expulsos ou têm abandonado o grupo, por rejeitar o caminho do sectarismo. Para os seus dirigentes, é altura de tocar a rebate: é mais difícil viverem um debate normal dentro do Bloco ou aceitarem a diversidade de opiniões, construindo o Bloco como uma nova força para dirigir a esquerda, e por isso precisam de se refugiar no insulto que não permita nenhum debate.
De facto, o caminho está escolhido. Para o sectário, o Bloco “capitula ao imperialismo” e “capitula à democracia”. O sectário saberá tirar conclusões. No dia em que proclamar de novo o seu grupo político, o mundo do sectário será então feliz: estará então sozinho consigo próprio.