O Poder tem de estar na Rua
Movimentos2011Para a vitória das “Gerações à Rasca”, é condição necessária a derrota da grande maioria política e económica, corporizada por PS, PSD, CDS, que impõem esta a cultura da precariedade, do desemprego e da miséria como modo de vida. Por Hugo Ferreira.
Passou já uma semana desde a manifestação das “Gerações à rasca” e convém sempre nestas situações, isto é, naquelas em que integrámos a equipa de redacção da história, que os balanços e perspectivas de futuro sejam feitos depois de algum tempo de maturação.
Daquele dia 12 de Março, impressionante não são apenas os números (mais de 300 mil pessoas por todo o país), mas sobretudo o sentimento generalizado de que, de facto, o habitat natural do poder é a rua.
Estive presente na manifestação do Porto. Sei que em Lisboa estiveram mais de 200 mil pessoas e talvez esse número não impressione sobremaneira os presentes, seja porque ali se concentram grande parte dos manifestantes de outros pontos do país, seja porque outras manifestações se realizaram com números semelhantes àqueles. Digno de registo, porém, é o facto de apesar dos 200 mil presentes em Lisboa, outros 100 mil terem saído à rua, em mais de 8 cidades do país. No Porto foram mais de 80 mil e o que lá se passou, eu nunca tinha vivido.
Primeira nota: impedir que o dia 12 de Março se transforme apenas numa memória inofensiva, sem seguimento no futuro e que perca, por isso, o poder transformador que assustou as elites dirigentes. Não queremos ser mais uns “vencidos da vida”.
A organização do Porto (não sei se foi assim noutras zonas do país), disponibilizou um microfone para todos os que quisessem dar a seu testemunho, o fizessem. Ouvi gente de todas as idades e com as mais diversas experiências: estudantes do ensino secundário e superior, recém-licenciados, trabalhadores precários e não-precários, reformados, desempregados. Das mais de 300 intervenções que ouvi, bem como dos comentários que ia absorvendo durante a marcha, a todas era comum um sentimento: a indignação, suportada na injustiça da precariedade como inevitabilidade do presente e do futuro, dos salários, das reformas e bolsas de estudos baixos/as (agora, PEC atrás de PEC, cada vez mais curtos/as). Mas se houve palavra repetida por muitos, foi a palavra solidariedade, o que evidencia que aquele sentimento de indignação, é também partilhado por muitos daqueles que não estão (ainda) no estado de desespero dos desemprecários.
Segunda nota: politizar essa indignação e saber direcioná-la contra os agentes políticos e económicos responsaveis por esta crise, sem que isto queira dizer, o controlo e a asfixia do movimento.
Se não foi o primeiro, foi com toda a certeza o mais estrondoso protesto que juntou trabalhadores, reformados, estudantes e outras camadas da população, depois do 25 de Abril. Para quem dedica grande parte do seu activismo no Ensino Superior e se bate diariamente por essa unidade necessária, o dia 12 de Março constituiu um vitória política importante. Os estudantes são hoje os primeiros precários. Precários pagando 1000E de propinas, quando o salário médio nacional não chega a 800E. Precários vivendo praticamente 6 meses sem receber a sua bolsa de estudo, devido aos atrasos na análise dos seus processos. Precários porque depois de a receberem, pouco mais do que a subsistência lhes sobra. Precários pois, depois do curso terminado sabem que 9 em cada 10 novos empregos criados, são trabalho precário.
Na verdade, luta por mais e melhor acção social, bem como a luta contra as propinas, sendo embora reivindicações estudantis, não se distanciam em quase nada da luta por melhores salários, contra a precariedade ou contra a exploração da força de trabalho. Mas mais importante é perceber que essa unidade, essa articulação de forças, é hoje imperiosa para conseguir qualquer vitória social. Terceira nota: sem essa unidade, não será possível reverter a relação de forças vigente e isso significa, consciente ou inconscientemente, abdicar da vitória contra a burguesia.
Esta manifestação, não só o dia 12, mas o antes e depois, mostra também que algo pode estar a mudar no grau de consciencialização das massas, na sua pré-disposição para a luta e transformação social. Descer a rua de Sta. Catarina (veio-me ali à memória as imagens daquele sem número de pessoas que desciam as ruas de Lisboa, rumo ao Largo do Carmo, em 1974), gritanto palavras de ordem à muito esquecidas, como “O povo unido jamais será vencido!”, ou cantado a “GrândolaVila Morena”, simbolizam em boa medida esse espírito. Mas o que impressionava mesmo, era o rosto convicto com que os manifestantes de 2011 percorriam as ruas do país, sabendo que agora já “não podem, nem querem voltar para trás”.
Não quer isto dizer que a Revolução “esteja ao fim da esquina”, ou que para isso baste “ficar sentado no sofá à espera do dia triunfal”. Nos próximos tempos, todos assisteremos a uma campanha massiva de propaganda capitalista, não de descrédito do protesto (essa foi a estratégia inicial), mas de instrumentalização desta luta, através do elogio cínico, quanto à forma da sua organização, mas sobretudo fazendo alusão às “grandes vitórias” que alcançou. No dia em que o Governo cair, não faltarão comentadores convertidos, a assinalar como ponto chave dessa queda o protesto das “Gerações à Rasca”.
Esse elogios são, sem dúvida, merecidos. É verdade que para o sucesso deste protesto, contribuíram não só o sentimento de indignação generalizado, mas também a forma espontânea e autónoma como foi convocado e organizado. É igualmente verdade que as vitórias (como será a queda deste Governo) são necessárias para reforçar o movimento, motivando-o e moralizando-o. No entanto, decisivo é que depois da queda do Governo, o manifesto das “Gerações à Rasca” possa ser cumprido e que as aspirações daquele sem número de manifestantes sejam atendidas.
Quarta nota: para a vitória das “Gerações à Rasca”, é condição necessária a derrota da grande maioria política e económica, corporizada por PS, PSD, CDS, que impõem esta a cultura da precariedade, do desemprego e da miséria como modo de vida. Não menos importante, é que as forças anticapitalistas tenham a capacidade para interpretar os sinais dados por este protesto. Combater as tentações de apropriação ou hegemonização do movimento e saber aprender com esta nova forma de marcação e organização de luta.