Motins: Neoliberalismo britânico colhe o que semeou
Artigo publicado no International Viewpoint.
Internacional2011Os motins nas ruas de Londres espalharam-se a outras cidades no Reino Unido e na sua origem não está apenas a violência policial recorrente nos bairros pobres. Artigo de Terry Conway e Billy Curtis.
O primeiro ano da coligação conservadora liderada por David Cameron ficou marcado pela austeridade, crescente desigualdade, empobrecimento rápido de milhões de pessoas e corrupção nos media, polícia e políticos, bem como a destruição dos serviços públicos. O segundo ano parece poder vir a ser marcado pela contestação e pelo conflito aberto com o Estado nas zonas pobres das cidades britânicas, por parte dos que têm menos a perder. É este o significado dos motins que ocorreram em várias cidades no início de Agosto.
A causa imediata foram duas acções policiais. A primeira foi o assassinato de Mark Duggan por polícias armados no dia 5 e a forma como a família foi tratada em seguida, ao nem sequer ter direito a uma visita para informá-los da sua morte.
Uma manifestação de protesto justificado juntou-se no dia 7 em frente à esquadra local. A polícia recusou-se a vir cá fora e ao menos emitir uma declaração pública. Foi o comportamento policial que detonou o motim, facto que tem sido omitido em quase todas as reportagens que se seguiram.
Como conta esta testemunha, a polícia atacou uma rapariga de 16 anos com bastões. Este clip mostra alguma da violência policial. Era virtualmente inevitável que essa agressão fosse provocar um paroxismo de raiva na comunidade local.
Testemunhos de outras partes do país contam histórias semelhantes, cada uma com as suas particularidades mas com um pano de fundo comum - no bairro de Hacney no leste de Londres, em Birmingham ou West Midlands, por exemplo.
Há histórias de assédio crescente aos jovens, só por estarem na rua, a qualquer hora do dia, incluindo o recurso às operações de revista que são profundamente odiadas pela comunidade negra, especialmente pelos jovens que são os maiores alvos. As estatísticas referem que os negros são 26 vezes mais alvo de revista que os brancos.
De forma invulgar, a Comissão Independente de Reclamações da Polícia foi rápida no caso de Mark Duggan, ao dizer no dia 9 que o relatório balístico inicial mostrava que ele não tinha disparado contra apolícia, acabando com os rumores mentirosos na imprensa que que os agentes teriam disparado em legítima defesa. Mas ninguém acredita que será feita justiça neste caso - há um longo historial de mortes às mãos da polícia sem que um único agente tenha sido alguma vez acusado.
E enquanto a falta de confiança na polícia é particularmente forte, os acontecimentos dos últimos anos fizeram somar mais as razões para alargar o descontentamento. A morte do vendedor de jornais Ian Tomlinson pela polícia durante as manifestações do G20 em 2009 e o espancamento do activista estudantil deficiente Jody McIntyre no ano passado levaram as imagens da violência policial a muitas casas que desconheciam as tácticas testadas na comunidade negra há já muitos anos.
As galinhas do neoliberalismo estão a a voltar ao poleiro. Em Haringey, onde vivia Mark Duggan, os cortes de 46 milhões de euros devastaram o acompanhamento dos jovens do bairro. É um padrão comum à maioria dos bairros urbanos - o apoio aos jovens foi uma das primeiras áreas a ser alvo da estratégia de austeridade de Cameron. Ao mesmo tempo, a demolição pelo governo das bolsas escolares, que davam a possibilidade de estudo para além dos 16 anos a cerca de 630 mil jovens, e o triplicar do preço das propinas universitárias contribuiram para um aumento da frustração, raiva e uma sensação de que ninguém quer saber o que acontecerá às novas gerações. Estes são alguns dos factores que criaram uma panela de pressão que agora vimos explodir.
No mês passado, um deputado de Tottenham exigiu ao governo medidas para fazer frente ao aumento de 10% no desemprego no seu círculo eleitoral, que tem agora 10514 pessoas em busca de emprego. Os moradores que são entrevistados dizem que há milhares de jovens quase a chegar aos 30 anos e que nunca tiveram um emprego. Não surpreende então que as lojas de artigos de marcas desportivas, telemóveis e os últimos modelos de tv's e leitores de mp3 estejam a ser saqueados por pessoas que sabem que nunca irão ganhar o suficiente para comprar aquilo.
Os capitalistas não podem ter as duas coisas: por um lado dizem que precisamos destes artigos para nos sentirmos realizados e por outro as ofertas de emprego que existem pagam salários de pobreza com contratos de curta duração, quando há contrato.
Por outro lado, os muito ricos nunca estiveram tão bem. A Comissão de Altas Remunerações relatou no dia 8 que os executivos das empresas cotadas no FTSE 100 recebem pensões anuais com um valor médio de 200 mil euros. A pensão média britânica ascende a uns reles 6670 euros por ano e este governo ainda quer empobrecer mais os trabalhadores. Ao mesmo tempo, mostram-se determinados em transferir grandes somas para as 300 mil pessoas que pagam o imposto máximo de 50% para rendimentos acima de 170 mil euros anuais. O mayor de Londres Boris Johnson apelou a que o imposto fosse desfeito e o seu amigo milionário George Osborne, Chanceler do Tesouro, já disse que se queria ver livre deste imposto.
Não admira por isso que muitos tenham argumentado que estes são os verdadeiros saqueadores, os verdadeiros criminosos. Uma carta publicada no Guardian dizia assim: "Os desordeiros só estão a fazer no meio da rua o mesmo que os banqueiros fizeram ao país. Mas ao contrário dos banqueiros, certamente serão punidos". O deputado da esquerda trabalhista John McDonnell escreveu no mesmo jornal: "Estamos a colher o que foi semeado nas últimas três décadas, ao criar-se uma sociedade grotescamente desigual com uma ética de apanha o que puderes custe o que custar. Uma sociedade de saqueadores criada pelos deputados com as suas despesas, pelos banqueiros e os seus bónus, empresas que fogem ao fisco, jornalistas que escutam telefones, polícias que aceitam subornos, e agora um grupo de putos alienados tentam agarrar a sua oportunidade…".
Estas coisas podem não ter estado na cabeça dos adolescentes que tiraram ténis de 100 libras das prateleiras da JD Sports. Mas o que eles sabiam foi que há por aí gente que tem riquezas e privilégios e que usam esse poder para manter milhões na pobreza. Um motim é um espasmo de raiva destrutiva e um protesto inarticulado, mas é uma das formas dos que não têm voz se fazerem ouvir.
Devemos resistir à tentação de usar o que aconteceu nas ruas desde a morte de Mark Duggan para cortar ainda mais as liberdades civis e atacar o direito ao protesto. As balas de borracha foram agora distribuídas de forma alargada à polícia nas ruas da Grã-Bretanha como nunca tinham sido antes - e sabemos o quão letais podem ser desde a sua utilização na Irlanda do Norte. Os canhões de água nunca foram usados aqui, mas estarão agora disponíveis para a polícia em apenas 24 horas, enquanto a possibilidade de intervenção do exército continua em debate.
É muito positivo que as organizações que se opõem aos cortes, como a Coalition of Resistance e em particular a Black Activists Rising Against the Cuts (BARAC), tenham feito ouvir a sua voz, ao falarem sobre as verdadeiras causas desta agitação e sobre as políticas que devem ser implementadas para dar um futuro às comunidades pobres e uma esperança nova à juventude. Nos próximos meses, os sindicatos e a esquerda radical têm de agir para começar a fazer recuar a ofensiva do governo Conservadores/Liberal Democrata.
Terry Conway é uma das editoras do IVP e dirigente da Socialist Resistance, secção britânica da IV Internacional.
Billy Curtis é apoiante da Socialist Resistance.
Artigo publicado no International Viewpoint.