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Mar de cinzas

Jaime Pinho · outubro de 2005 · Revista Combate · 1.614 palavras

Combate n.º 284, outubro a dezembro de 2005, pp. 22–24

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Jaime Pinho* ilustração de ricardo lafuente

A VIAGEM COMEÇA. Dentro de pouco, quando começar a subida para a serra, e se ultrapassarem os últimos terrenos cultivados da aldeia, entra-se num mar de cinzas. O cheiro a terra queimada acompanhar-nos-á durante as próximas horas de viagem. De um lado e outro da estrada, ainda se vêem troncos a arder, raizes a arder, no meio de dezenas, centenas de milhar de árvores queimadas de pé, num cenário que esmaga, provoca angústia e sobressalto.

A primeira aldeia que se avista nesta imensidão está atarantada, um misto de impotência e revolta permite ainda assim perceber: as pessoas não esperam nada do Estado, do governo ou da câmara. O Estado não chega ali! O Estado não serve para nada, não é de confiança. As oliveiras, as pastagens das cabras, os poucos pinheiros e eucaliptos que não são das Companhias de Celulose, numa palavra, a sua economia, as suas economias, já não existem. Ficaram sem nada. E só talvez o facto de já antes dos incêndios não terem quase nada explica um aparente desinteresse com que encaram as perdas.

Durante os dias que o fogo se passeou por aquelas encostas à volta, subindo e descendo as serras, impunemente, passando primeiro por um lado da aldeia, regressando dois dias depois pelo lado que restava, as pessoas da aldeia praticamente desistiram de um combate absolutamente ineficaz. Ninguém com o mínimo de poder e de meios se chegou ali. Só houve um helicóptero durante uma hora, se tanto, durante um dia. E noutro dia um avião, igualmente cerca de uma hora, para ajudar a desviar o fogo que se aproximava das casas. De resto, o helicóptero seria mesmo de uma Companhia de Celulose, mais interessado nos eucaliptais e pinhais da empresa.

Retoma-se a viagem. A serra a seguir ultrapassa já os mil metros de altitude.

O primeiro plano é a encosta em frente, do outro lado do rio Paiva. Tudo ardido! As serras formam um ondulado, até se perder o horizonte. Até onde a vista alcança – tudo ardido, tudo queimado! Roda-se o olhar, uma, várias voltas completas – o mesmo cenário. Um mar de cinzas.

E é talvez na descida da serra, quando a estrada é uma linha livre no meio das cinzas, que a dimensão da catástrofe ambiental do verão de 2005 ganha contornos. Uma ave, um falcão, segundo parece, cruza à frente do carro, rodopia, a uns 5 metros de altura, segue à frente por uns momentos, numa atitude insólita. Desespero? À procura das crias? Tentativa de suicídio? Quando desaparece, espera-o o interminável mar de cinzas.

E assim por várias regiões do país. Habitats de aves e de todos os animais selvagens estão feitos em cinzas. Depois dos esforços de salvamento das colmeias, as abelhas, devido aos incêndios, ficaram sem comida, pelo que provavelmente virão a morrer.

Ao contrário dos relativamente pequenos que sucediam até há poucos anos, os incêndios de 2005 são enormes, dias seguidos a lavrar, empurrados pelos ventos. Cerca de 100 destes incêndios que fustigaram o país queimaram áreas superiores a 500 hectares. Os animais não têm para onde ir, as crias ficaram para trás. As pessoas, essas serão abandonadas naquele cenário, sem seguros que as compensem, sem solidariedade, ainda mais pobres, respirando aqueles gases e as poeiras cinzentas, as águas contaminadas.

Por detrás do fumo

E no entanto, do próprio fogo que vai vencendo todos os obstáculos, há lições a tirar.

A primeira e mais óbvia é a constatação de que se salvaram as aldeias principais, que constituem oásis no meio da desolação. Os anéis de campos agrícolas e de pastagens que rodeiam estes agregados populacionais foram suficientes para travar o fogo. Nesses redutos, onde há pessoas que ainda conseguem fazer agricultura de subsistência, o fogo praticamente não entrou. É a desertificação humana, a falta de apoios e incentivos à agricultura familiar que ligue as pessoas à terra, uma das principais razões para a dimensão insuportável destes incêndios. Falta uma estratégia para o sector agro-florestal, o que facilita o abandono das áreas agrícolas, de pastagens e florestais. Essas pessoas tinham (e têm) um papel decisivo no controle da situação, ou pelo menos na capacidade de desviar a rota do fogo, poupando as casas. São elas que conhecem a geografia da zona, os caminhos estratégicos, os obstáculos naturais que podem permitir ganhos de tempo preciosos. Com meia dúzia de enxadas e muita sabedoria, houve comunidades aldeãs que conseguiram evitar o pior. Em que pequenos grupos de pessoas conseguiram enfrentar o fogo de igual para igual, em que o conhecimento profundo do local foi a única coisa que lhes valeu.

Escusado será dizer que o Estado não dá nenhum valor a esta gente, que não há educação ambiental/ florestal partilhada, que a arrogância das autoridades não permite aprender nada com quem sabe coisas essenciais. Daí a ausência do Estado no aconselhamento das populações, no apoio à criação

de associações de produtores com acesso a fundos comunitários baseados em projectos com sustentabilidade.

A inversão da política agrícola, que trave o abandono da agricultura e a sua substituição por monocultura florestal é assim uma prioridade.

“Petróleo verde”: O fim do mito

Em segundo lugar vem o desordenamento da floresta. Enquanto que outrora a diversidade das matas de espécies autóctones funcionava como travão dos incêndios, a actual monocultura de pinheiros e eucaliptos (espécies de elevada combustibilidade) arrasa a biodiversidade. Em rigor, não é floresta o que eles fazem, mas antes “povoamentos industriais” O mosaico paisagístico dos espaços rurais está a ser destruido. O investimento na investigação sobre o melhoramento das espécies indígenas foi preterido e a investigação apoiada pelo Estado virou-se quase totalmente para o eucalipto. Não foi Mira Amaral, ministro de Cavaco Silva, que lançou o slogan de que “o eucalipto é o petróleo verde do país”? O Estado lavou as mãos e o país ficou à mercê das Companhias da Celulose. E quantos governantes dos partidos do Bloco Central rodopiam entre a administração destas companhias e a administração do próprio Estado?

As matas de carvalhos, freixos, castanheiros, sobreiros, azinheiras, muito menos combustíveis e que se autodefendem do fogo, dadas as caracerísticas da vegetação rasteira que quase desaparece, sofreram neste verão um ataque feroz. Já isoladas e economicamente desvalorizadas, muitas sucumbiram, total ou parcialmente. Onde está uma política sensata de reflorestação destas matas imprescindíveis, onde estão os apoios a estas espécies, contra o império das celuloses?

As zonas húmidas, formadas no fundo dos vales, muitas vezes com um rio ou riacho, com a vegetação de salgueiros, amieiros e outras folhosas pouco combustíveis, encontram-se seriamente debilitadas. A invasão dos eucaliptos não respeita as mínimas normas de ordenamento florestal. Os eucaliptos conduzem o fogo por entre estes ecossistemas fundamentais, saltando com paradoxal facilidade para o outro lado do vale, sendo praticamente impossívelcontrolá-lo. Em vez de o extinguir, as zonas húmidas, ao serviço das celuloses, transformaram-se em eucaliptais e veículos de passagem dos incêndios.

Em terceiro lugar, há que referir a incompetência e a negligência do próprio Estado. A começar pelas matas que estão sob a sua responsabilidade. As leis, elaboradas sobretudo a partir de 1981 (!) estiveram espartilhadas por inúmeros diplomas até 2004, primeiro passo para o seu incumprimento. Foi o que se passou com as obrigações legais de limpeza das fai

xas de protecção das edificações. O Estado continua a falhar, governo atrás de governo, no planeamento e ordenamento florestal, nas diversas escalas do território. As políticas no sector conduziram ao quase desaparecimento dos serviços estatais vocacionados para a gestão florestal, quando o que era preciso era a sua reestruturação. O cadastro das propriedades foi sempre adiado. As técnicas de prevenção, desenvolvidas ou adaptadas a Portugal por universidades, nomeadamente a UTAD, o ISA e a Universidade de Coimbra foram desprezadas. É o caso dos “fogos controlados” estratégicos em épocas mais húmidas, os “sistemas de prevenção e detecção de incêndios”. Os simulacros para melhoramento da actuação imediata e a organização dos postos de comando não passam do papel... ou são feitos para inglês ver. A estrutura da propriedade fundiária não foi corrigida em favor da floresta e dos pequenos e médios proprietários ou herdeiros, que se vêem impotentes e sem recursos financeiros para fazer a tal gestão activa de que os ministros falam em tom ameaçador, do alto dos gabinetes.

Perante o descalabro, não se vislumbra nada de sério e coerente. Onde estão implementadas as orientações estratégicas do Conselho Nacional de Reflorestação para a recuperação das áreas ardidas e sua extensão `as áreas não ardidas, elaboradas desde 2004? Para quando a reorganização dos serviços florestais, com admissão de técnicos qualificados e restante pessoal? E as equipas de sapadores florestais – quando passarão a ser levadas a sério? Para quando a conclusão e aplicação dos Planos de Ordenamento e Gestão Florestal? Quando se deixam de desculpas, agora que toda a gente sabe que as alterações climáticas e as secas prolongadas vieram para ficar?

De igual modo, as câmaras municipais. Quantas têm em funcionamento as Comissões Municipais de Defesa da Floresta contra Incêndios, que devem obrigatoriamente congregar todas as entidades relacionadas? Onde estão os Gabinetes Técnicos Florestais dignos desse nome? Para já não falar do descalabro que é a política de construção de habitações desordenadas, dispersas, que nos momentos decisivos absorvem os bombeiros, que têm instruções para defender as casas e deixar arder tudo o resto!?

Leis e pessoas conscientes de que Portugal está transformado, em vastas regiões, num manto de pólvora não faltam. O que faz falta é desmascarar esses políticos que trabalham para as celuloses. Que só aparecem para exibir pateticamente a sua incompetência no “ataque aos fogos” quando o país que supostamente deveriam defender recomeça a transformar-se em cinzas.

* Jaime Pinho é professor e dirigente do Bloco de Esquerda

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Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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