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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Itália: Caminhos da Esquerda depois da derrota de Berlusconi

até julho de 2009 · Internacional · 2.321 palavras

Tradução, esclarecimentos e apresentação por Elídio Marques a partir das versões em espanhol publicada na revista Viento Sur (www.vientosur.info) e em inglês publicada na revista International Viewpoint (www.internationalviewpoint.org).

A esquerda socialista italiana encontra-se diante de um de seus maiores desafios de sempre. Reunida no interior da Refundação Comunista está comprometida com o futuro governo Prodi, que se forma a partir da vitória de uma ampla aliança que vai até setores originários da antiga Democracia Cristã, passando pelos Democratas de Esquerda, partido que surgiu da conversão da maioria do antigo PCI ao social-liberalismo. Além disso, a direita mostrou força ao arrebatar quase metade dos votos para um primeiro-ministro inteiramente desgastado. Uma primeira reflexão sobre os resultados e caminhos a serem seguidos é necessária.

Nos dias 9 e 10 de Abril a Itália teve a sua eleição mais disputada do pós-guerra. Duas coligações protagonizaram a disputa: a “Casa das Liberdades” liderada pelo magnata das comunicações Silvio Berlusconi e integrada, além do seu próprio partido, a Força Itália, pelos herdeiros diretos do fascismo e pela direitista Liga Norte, de um lado e a “União” reunindo um amplo espectro político que vai desde o partido Margarida de origem democrata-cristã, a social-liberal DS (Democratas de Esquerda, na sigla em italiano, que teve origem na conversão da maioria do antigo PCI) até o Partido da Refundação Comunista, o PRC. A vitória da União, encabeçada pelo ex-primeiro-ministro Romano Prodi (cujo governo anterior caiu por ter perdido exatamente o apoio do PRC) foi muito apertada, apesar do desgaste do governo anterior, cuja política internacional foi marcada pela subordinação aos interesses norte-americanos e pela hostilidade em relação aos contingentes de imigrantes que têm a Itália como porta de entrada para o continente europeu. O resultado deu-se apesar do favoritismo da União apontado pelas pesquisas e do apoio explícito de setores conservadores, como a patronal Cofindústria, o jornal Corriere della Sera e o presidente da Fiat e da Ferrari. A participação da Refundação – partido que corresponde à principal expressão dos setores socialistas naquele país - na coligação vitoriosa não se deu sem controvérsia: uma parte importante de seus integrantes se opôs a esta opção. A controvérsia tornou-se ainda mais explícita e pública quando os setores mais moderados da coligação exigiram e conseguiram o “corte” de Marco Ferrando, dirigente vinculado a uma das correntes minoritárias mais radicais, da lista de candidatos da Refundação. O PRC obteve resultados eleitorais superiores aos das últimas eleições e sua bancada é mais uma vez indispensável à formação de maioria tanto na Câmara quanto no Senado. Publicamos a seguir a avaliação preliminar sobre as eleições de dois dirigentes da Refundação vinculados a uma das posições que se colocaram criticamente em relação à política que foi majoritária, a corrente “esquerda crítica”. Optou-se por apresentar os esclarecimentos aos leitores entre colchetes.

Salvatore Cannavò e Franco Turigliatto – Uma primeira avaliação das eleições

A legítima satisfação por ter derrotado o governo Berlusconi não pode justificar um triunfalismo por parte da União, nem deve inspirar uma avaliação otimista acerca das recentes eleições. A inacreditável divisão do país, o sucesso numérico da Casa das Liberdades no Senado e a vitória na Câmara dos Deputados por escassos 25 mil votos e graças a um “prêmio de maioria” duramente conquistados constituem sinais que induzem a uma reflexão tranqüila e a uma avaliação nem sectária nem propagandista.

1 – Em primeiro lugar, se é verdade que Berlusconi foi derrotado, sua coalizão e o “berlusconismo”, como uma verdadeira “biografia da Itália”, não o foram. Este é um elemento analítico significativo, sobretudo porque tem implicações nas condições reais que a “União” terá para governar. O “berlusconismo” provou ter uma formidável adesão política e social que permitiu um inesperado ascenso do líder da direita. Além disso, mostrou como a Itália segue sendo um país marcado profundamente por um misto de neoliberalismo, populismo, racismo e clericalismo, que caracterizam a “Casa das Liberdades”. Sua mensagem, em boa medida influenciada pela cultura neoconservadora norte-americana, conseguiu atrair e motivar metade do eleitorado e a maioria dos votos dos mais velhos em uma eleição que teve um elevado grau de participação e uma drástica redução do nível de abstenção. A “União” não se revelou um instrumento suficientemente adequado para derrotar claramente a direita e, portanto, para deter a cultura a ela vinculada, seu enraizamento social e sua força de implantação.

2 – No campo de “centro-esquerda”, Prodi afirma o projeto da formação de um novo “Partido Democrático”, que sai reforçado pelos resultados alcançados pelos “Democratas de Esquerda” e pela “Margarida” no Senado. Ao mesmo tempo, mesmo Prodi foi derrotado nestas eleições ao não chegar a afirmar-se como líder indiscutível, sobretudo em virtude dos resultados para o Senado, que pesarão muito na formação do novo Governo. Prodi equivocou-se na condução da campanha eleitoral desenvolvida sob a bandeira da moderação, da relação com a Cofindústria, sem enfrentar as questões sociais, o que poderia ter provocado fortes divisões na frente adversária. Enquanto isso, Berlusconi adotava uma estratégia de radicalização e de ataques para consolidar seu eleitorado e reduzir o risco da abstenção. A “União” respondeu balbuciando e recuando, cada vez mais, no plano da política fiscal e da análise do país, piscando um olho aos “poderes estabelecidos” e perdendo elementos de radicalidade inerentes a questões como a precariedade ou o agravamento dos juros. Uma concessão à linha moderada que se voltou contra o coração liberal da “União”, os “Democratas de Esquerda” e a “Margarida” que saem derrotados. O bom resultado alcançado pela Refundação Comunista para o Senado, compensado pelos resultados não tão satisfatórios para a Câmara, e a boa marca obtida pelas forças anti-liberais da coalizão indicam que havia uma vontade de mais esquerda não sintetizadas corretamente nem no perfil geral da “União” nem na figura de Prodi.

3 – As eleições também marcam o “ponto máximo” de um rígido sistema bipolar. Isto porque nunca antes o voto representou tão claramente um referendo a favor ou contra um chefe de governo. A longa espera pela contagem dos últimos votos e a escassa margem de 25 mil votos são sinais desta situação. Mas exatamente por causa dessas características e em virtude de uma lei eleitoral “ilegítima”, a confrontação entre os dois líderes e seus projetos refletiu a fotografia de um país dividido exatamente à metade, com as duas câmaras de maiorias diversas (ao menos em termos de votações reais) e bloqueando inteiramente o sistema político. Acreditamos que é o suficiente para sustentar o fim do sistema bipolar, através da introdução de uma lei eleitoral mais eficaz e democrática, ao estilo alemão e a volta a uma dialética política entre programas diversos e direções plurais.

4 – As eleições registram sempre, ainda que o façam com atraso, a correlação de forças no plano social e no plano da luta de classes. E este parâmetro indica que a fase de lutas e de movimentos que acumulamos contribuiu para atingir o mito de Berlusconi, mas não chegou para derrotá-lo. O bloco político da direita obteve exatamente os mesmos votos que nas eleições de 2001 e a derrota da Força Itália se traduziu em um reequilíbrio no interior da coalizão [de direita] em favor da “União dos Democratas Cristãos”. As lutas e experiências desses cinco anos indicaram uma mudança de tendência em relação aos anos 90, mas não chegaram ao ponto de desenhar uma alternativa clara ao liberalismo e seu modelo social. Haver acreditado e feito acreditar que o país havia mudado e que se necessitava apenas esperar o dia das eleições pra mostrá-lo, revelou-se um equívoco dramático. Hoje o sentimento difuso é o da desorientação e da dificuldade de encontrar uma saída para as esperanças de mudança. Ter acreditado que a saída política seria decisiva para consolidar o ciclo de mobilizações dos últimos anos pesou sobre estas debilitando-as. Hoje vemos com amargura que na travessia em direção ao campo social e político resta um largo caminho por percorrer e que os obstáculos serão numerosos. Assim o demonstra o resultado não exatamente brilhante nas regiões governadas pelo centro-esquerda, nas quais, apenas um ano depois da mudança apontada pelas eleições regionais, foi a direita que venceu. Este exemplo constitui a enésima demonstração de que para produzir uma mudança real, necessita-se de implantação social e capacidade de reconstrução de um bloco pela alternativa que esteja à altura de produzir uma dinâmica de transformação, sobretudo desde baixo. Pensar hoje em ignorar este dado entricheirando-se em um governo de “minoria social” pode ter resultados dramáticos para o desenvolvimento da luta de classes e para a própria sorte da Refundação Comunista.

5 – Com este quadro político a perspectiva que se abre está longe de ser a melhor possível. A formação de um governo se anuncia extremamente difícil não apenas pela ambigüidade do programa prodiano ou das forças moderadas do centro-esquerda, mas também pela força objetiva que a frente de direita demonstrou e por seus efeitos no centro-esquerda. A tendência em direção à opção centrista aparece hoje com uma força maior. Esta pode assumir formas diversas: o acordo para a eleição do presidente da República ou para a presidência das Câmaras ou sobre uma proposta de emergência para o saneamento das contas públicas como já comentam expoentes da centro-esquerda e assim sucessivamente. Por estes motivos, um eventual governo Prodi ou assume orientações radicais, com sinais de descontinuidades evidentes em relação ao passado ou não durará. Sinais de descontinuidade imediatas que se traduzem na retirada imediata das tropas do Iraque, a revogação das leis Biagi [que aumenta a precariedade do trabalho], Moratti [contra-reforma educacional e universitária] e Bossi-Fini [anti-imigrantes] e o relançamento dos temas relativos aos salários.

6 – As pressões sobre nosso partido serão muito fortes. As chamadas ao sentido de responsabilidade e ao vínculo forte da coalizão produzirão uma coerção sobre a Refundação Comunista que se verá constrangido a respeitar tal aliança para não permitir uma nova vitória da direita. Esta orientação pode traduzir-se na proposição de medidas inaceitáveis. A participação em um tal governo, nas diferentes formas que pode assumir, constitui, portanto, um risco muito maior do que o que temíamos no decorrer dos últimos meses. A Refundação corre o risco de permanecer paralisada em uma armadilha político-institucional da qual conviria se desvencilhar. Trata-se de colocar no centro a radicalidade dos conteúdos por cima do vínculo da coalizão.

7 – Por estes motivos, a Refundação deve reconquistar uma autonomia própria com capacidade de iniciativa. Trata-se de dar centralidade aos conteúdos sociais no rasto do formidável resultado que se acaba de obter na França. As principais linhas de atuação que revestem um caráter de emergência continuam sendo as assinaladas na campanha eleitoral: desde a retirada imediata das tropas do Iraque, a derrogação das leis mencionadas, o fechamento dos Centros de Detenção Temporária para Imigrantes, a taxação das rendas financeiras e medidas concretas de distribuição de renda através da reintrodução de uma nova escala móvel; uma lei sobre as uniões civis, leis de saneamento no plano judiciário com a substituição de leis “personalizadas” por outras que seja iguais para todos (anistia, drogas ...). A opção pela autonomia deverá exercitar-se frente à eleição [indireta, pelo parlamento] do próximo Presidente da República, rechaçando as candidaturas ligadas a uma visão neoliberal da economia e que, em vez disso professem um compromisso com a Constituição e em particular com o artigo 11 [que repudia a guerra como ataque a liberdade dos demais povos]. Neste marco político se situa a campanha por um referendo para derrotar a contra-reforma constitucional da centro-direita assim como a campanha para as iminentes eleições municipais.

8 – O resultado obtido pela Refundação Comunista se presta a duas leituras. A marca excepcional obtida no Senado [7,2%] não corresponde ao resultado da Câmara [5,8%], o qual, aliás, é inferior ao obtido nas últimas eleições européias. Em termos absolutos deu-se um significativo passo, mas num quadro em que todas as forças políticas se beneficiaram do maior comparecimento às urnas. É preciso atentar para os dois tipos de votação, através das quais se penaliza a influência dos jovens [uma vez que só votam para o Senado os maiores de 25 anos]. A explicação pode ser dupla: em primeiro lugar a competição com a lista “Olivo” [reunindo DS e Margarida] que foi percebida como uma proposta política inovadora, unitária e, através da figura de Prodi, mais à esquerda do que as duas listas, dos Democratas de Esquerda e da Margarida, que se apresentaram separadas ao Senado. Em segundo lugar, o efeito produzido pelo voto no “Olivo” para a Câmara e na lista “Juntos pela União” para o Senado [Comunistas Italianos – dissidência da Refundação – Verdes e outros]: eleitores dos Comunistas Italianos teriam votado na Refundação neste segundo caso. Conviria assim questionar até que ponto foi útil para estes fins uma campanha eleitoras jogada sobre a confiança entre os membros da coalizão em vez da diferenciação e o “valor acrescido” da Refundação.

9 – Nem sequer no plano da esquerda européia o resultado pode ser estimulante. Porque frente à lista unitária “Olivo” se deveria ter produzido uma maior atração à proposta da Refundação Comunista. Em vez disso, a Refundação conquistou seus votos na competição com as listas de partidos [para o Senado], dos Democratas de Esquerda e da Margarida, com a presença praticamente neutra da lista “Juntos pela União” justificando o voto na Refundação.

10 – O partido desempenhou um papel importante nesta campanha, utilizando a energia e a pressão dos militantes, a presença e o prestígio de suas estruturas territoriais, enfim, sua capacidade de ser “partido”. Obviamente este dado não serve de contrapeso frente a uma campanha eleitoral em grande medida mediatizada, dependente das aparições televisivas e, portanto, de seus líderes. Uma deformação que deveremos modificar com uma discussão interna sobre o partido e seu papel. A esta paixão e a este esforço vai dirigido, apesar da dinâmica eleitoral que durante algumas semanas se centrou nas diferenças internas, a valorizar a unidade de ação e os sentimentos que apesar de tudo fazem da Refundação um partido diferente dos demais.

Tradução, esclarecimentos e apresentação por Elídio Marques a partir das versões em espanhol publicada na revista Viento Sur (www.vientosur.info) e em inglês publicada na revista International Viewpoint (www.internationalviewpoint.org).

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2011.

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