Festival Mundial da raiva digna marcou 15 anos do EZLN
Internacional2009Depois de 4 dias na cidade do México, um multitudinário fim de ano no Caracol de Oventic e mais quatro jornadas em San Cristóbal de las Casas, concluiu-se no passado dia 5 de janeiro o Primeiro Festival Mundial da Raiva Digna, convocado pelo EZLN no 15º aniversário do seu aparecimento público. Ali se reuniram vários milhares de pessoas vindas de distintos lugares do México e de diversos cantos do planeta Terra. Lê aqui o relato de Jaime Pastor, da Izquierda Alternativa do Estado espanhol.
“Outro mundo, outro caminho, abaixo e à esquerda” são possíveis
Êxito total do Primeiro Festival Mundial da Raiva Digna, realizado no México.
Jaime Pastor
Depois de 4 dias na cidade do México, um multitudinário fim de ano no Caracol de Oventic e mais quatro jornadas em San Cristóbal de las Casas, concluiu-se no passado dia 5 de janeiro o Primeiro Festival Mundial da Raiva Digna, convocado pelo EZLN no 15º aniversário do seu aparecimento público. Ali se reuniram vários milhares de pessoas vindas de distintos lugares do México e de diversos cantos do planeta Terra. Durante todos esses dias foram muitas e variadas as actividades a que se puderam assitir, não faltando entre elas as manifestações de solidariedade com o povo palestino na mesma cidade onde se realizou o evento, reflectidas também por uma emotividade especial pela mensagem que John Berger enviou a este Encontro. (1)
Uma raiva criativa
Não me é possível espelhar neste artigo tudo o que foi ouvido, sentido e vivido ao largo de uns dias nos quais pudemos partilhar uma experiência inesquecível, pelo menos para gente que, como era o meu caso, entrava por primeira vez em território zapatista. Por isso esta é só uma crónica geral e breve, esperando ter mais tempo para poder assimilar e extrair ensinamentos úteis também para a esquerda anti-capitalista europeia que agora reemerge e tem muito para aprender do zapatismo. Adiantemos desde já que o Apelo do Comité Clandestino Revolucionário Indígena-Comando Geral do EZLN de Setembro passado anunciava convocando para este Festival ("Há uma raiva criativa. Uma raiva que pinta todas as cores dos caminhos da base e à esquerda nos cinco continentes") manifestou-se com crescendos durante esta transição de 2008 a 2009. Os "companheiros" zapatistas acertaram em cheio ao tomar esta iniciativa justamente pouco tempo antes do rebentamento em toda a sua profundidade da crise sistémica do capitalismo que estamos a assistir e da erupção de novas explosões de raiva digna como a revolta popular na Grécia, exposta com calor pela delegação vinda desse país, convencida de que seguirão adiante apesar da criminalização policial e mediática que estão a sofrer.
Por isso, este Festival converteu-se no primeiro espaço comum de reflexão e procura de outros caminhos de esperança nesta nova etapa, não só para as diversas lutas da geografia mexicana mas também para as que abarcam todo o planeta. Ao redor de 228 colectivos, procedentes da quase totalidade dos estados do México, mais várias centenas de pessoas de 25 países, juntamente com 90 grupos de música e contadores de histórias e muitos observadores, puderam-se encontrar, conversar e divertir-se; ao que temos de somar os muitos postos de venda de produtos tão ricos em imaginação e cores do artesanato indígena, parte deles fabricados nas cooperativas zapatistas.
Se na cidade do México as principais mesas redondas giraram em torno de "As Quatro Rodas do Capitalismo: Exploração, Despojo, Repressão e Desprezo" (onde participaram, juntamente com diversas organizações de trabalhadores e de mulheres, sensibilidades diversas como as que, para além das originais e mestiças rebeldes, podem representar John Holloway e Olivier Besancenot ou o feminismo anti-hegemónico de Mercedes Olivera) e reuniram um elevado número de pessoas, as que foram realizadas em San Cristóbal de las Casas juntaram ainda mais. Estas últimas começaram com uma apresentação do EZLN na qual se insistiu que "não viemos para competir nem ver quem é mais revolucionário" senão que "estamos aqui para nos conhecermos, ouvir-nos" e nos contarmos "como lutamos". Houveram logo intervenções de porta-vozes de diferentes organizações políticas e sociais membros da Outra Campanha e da Sexta Internacional e solidárias com o zapatismo (entre elas a CGT do Estado espanhol), seguiram-se as dos intelectuais (Pablo González Casanova, Luis Villoro, Adolfo Gilly, Raúl Zibechi, Jean Robert, Michael Hardt, Sylvia Marcos, Sergio Rodríguez Lascano, Gustavo Esteva, Carlos A. Aguirre Rojas (2)) e membros de diferentes organizações políticas e revistas (como o caso de Joxe Iriarte "Bikila", de Zutik, e o meu, para além da sandinista Mónica Baltodano, dissidente do "danielismo", e de Pier Luigi Sullo, de "Carta" de Italia), alternaram com debates sobre "A Outra Comunicação, a Outra Cultura" (com, entre outros, El Mastuerzo, Roco, da Maldita Vecindad, e Angel Luis Lara "El Ruso") e "A Outra Sexualidade" (com o testemunho contra a tortura sexual de mulheres que sucederam em Atenco e a exposição de experiências inovadoras e subversivas das normas por parte da Rede Mexicana de Trabalho Sexual) e tiveram o seu centro na mesa na que participaram porta-vozes de organizações indígenas e camponesas não só mexicanas mas também de outras partes da América.
Aqui destacou-se o protagonismo do Congresso Nacional Indígena (com Juan Chávez e Carlos González, entre outros), intervenções como as do veterano lutador e companheiro peruano Hugo Blanco e a de Oscar Olivera, porta-voz da Coordenadora de Defesa da Água e do Gás da Bolivia, ou as que denunciavam situações de injustiça "invisíveis" para o grande público como a dos mapuches no Chile e na Argentina, descrita por América Millaray, ou a que fez o presidente do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas Fronteiriços nos Estados Unidos, Carlos Marentes sobre a "zona 0 da migração mundial". Na maioria das sessões as intervenções do Subcomandante Insurgente Marcos, do Tenente Coronel Insurgente Moisés e da Comandanta Insurgenta Hortensia (descrevendo esses Sete Ventos que ofereciam olhares e novas estórias, aos que se juntaram os das crianças Lupita e Toñita), foram seguidas com a maior atenção dentro de um Auditório que, apesar da capacidade de 1.300 pessoas, ficou pequeno para as mais de 2.000 que chegaram à Universidade da Terra do CIDECI (Centro Indígena DE Capacitação Integral), o lugar entranhável, de clara inspiração illichiana e plenamente autónomo, onde decorria o Encontro e que foi transmitido simultaneamente via internet (dignarabia.ezln.org.mx).
Os "Sete Ventos" e a Palestina
Os "Sete Ventos nos calendários e nas geografías da base" constituíram um percurso pelas diferentes formas que as novas expressões de rebeldia estão a tomar e que estão a surgir perante a crise global. Se o primeiro vento descrevia "uma digna juventude raivosa", o segundo refería-se a "um digno e raivoso empenho" (com a crítica à classe política mexicana, desde Calderón até López Obrador, e aos sindicatos vendidos e sem esquecer a denúncia do poder crescente dos clãs do narco-tráfico), o terceiro, a "uma digna e raivosa côr da terra" (os povos originários das Américas), o quarto, a "uma digna raiva organizada" (com a experiência dos 5 Caracóis como experiência permanente da vontade de "mandar obedecendo"), o quinto, a "uma digna y feminina raiva" (sobre a luta das mulheres zapatistas), o sexto, a "outra digna raiva" (abordando abertamente os problemas e também os avanços na luta pela liberdade sexual dentro do zapatismo) e o sétimo e último, a "uns mortos dignos e raivosos", no qual o EZLN expressou, entre outras coisas, tanto a sua vontade de superar tentações de vocação hegemónica que possa ter tido no passado como a sua preocupação pelo rumo e o destino do movimento da raiva digna e não por quem o irá dirigir. Cabe destacar também, juntamente a tudo isto e mais que será pouco contar agora neste artigo a firme denúncia feita pelo EZLN, na boca do "Sup", sobre o que está a acontecer em Gaza, onde "há um exército profissional a assassinar uma população indefesa.
Quem de nós que é da base e da esquerda pode ficar calado? (...) O governo de Israel declarará que deu um severo golpe ao terrorismo, ocultará ao seu próprio povo a magnitude do massacre, os grandes produtores de armamento terão recebido um lufada económica para afrontar a crise e ‘a opinião pública mundial', esse ente maleável, virará a cabeça para outro lado. Mas não é só. Também vai acontecer que o povo palestino vai resistir e sobreviver e seguirá a sua luta, e a continuará a ter a simpatia desde a base pela sua causa.
E, talvez, um miúdo e uma miúda de Gaza sobrevivam também. Talvez cresçam e, cresçam neles a coragem, a indignação, a raiva. Talvez se façam soldados ou milicianos de algum dos grupos que lutam na Palestina. Talvez se enfrentem num combate contra Israel. Talvez o façam disparando uma arma. Talvez imolando-se com dinamite à cintura. E então, lá em cima, escreverão sobre a natureza violenta dos palestinos e farão declarações condenando essa violência e voltar-se-à a discutir se sionismo ou anti-semitismo. E então ninguém irá perguntar quem semeou o que colhe".
Mas, como já indicava ao início do artigo, não posso deixar de mencionar a participação maciça que tiveram as festividades do fim do ano no Caracol de Oventic, juntamente a indígenas rebeldes procedentes dos municípios autónomos e no meio de um ambiente de festa que teve como auge o aparecimento do Comando Geral do EZLN às 0 horas zapatistas (1 hora antes da oficial mexicana), recebida com uma ovação geral e com gritos de "Zapata vive, la lucha sigue" que deram seguimento ao discurso que recordou o nascimento do exército insurgente e os 15 da sua tomada de San Cristóbal de las Casas e aos hinos mexicano e zapatista. Depois seguia a festa até à manhã seguinte, pelo menos para os que resistiram ao frio e ao sono.
Resumindo, um Festival que, como ocorreu em janeiro de 1994 quando o grito de "Ya Basta" lançado pelo EZLN se converteu no ponto de partida do movimento anti-globalização, foi-nos oferecido esta vez, apesar do reduzido eco nos media convencionais, como uma primeira oportunidade para juntar rebeldias no início de uma nova onda de revoltas e raiva digna que começa a percorrer o planeta. Um Festival que demostrou também que o EZLN, os Caracóis e as Juntas de Boa Governação zapatistas, e ainda reconhecendo os seus problemas e dificuldades para fazer frente à estratégia de repressão e divisão dos povos indígenas por parte do Estado mexicano, continuam a resistir, criando convergências e novas alianças sociais e a prefigurar esse outro mundo e esse outro caminho que, com outra política, na base e à esquerda, teremos de fazer possíveis neste século XXI.
11 de janeiro de 2009
Tradução de Ricardo Gomes
NOTAS
(1) John Berger leu uma carta que enviou em 1955 desde Gaza a um amigo, um escritor palestiniano que foi, en 1972, assassinado pela Mossad: ouvindo-a, era fácil comprovar a enorme actualidade -piorada agora até ao extremo- sobre tudo o que era contado, sobre as condições tão adversas em que já nesse então vivia o povo palestino.
(2) O colega e amigo chileno-espanhol Marcos Roitman, que também foi convidado, não pode aparecer à última da hora por razões de saúde mas enviou o texto da sua intervenção ("La digna rabia y la otra política") que foi lido no Festival e foi reproduzido no diário La Jornada, o único jornal mexicano, por certo, que deu informação regular sobre o Festival. Também Arundhati Roy e Walter Mignolo puderam aparecer mas ambos enviaram mensagens de apoio, a primeira com um relato de ficção que descrevia a mais crua realidade sobre como actuam as multinacionais no roubo da Terra e dos seus povos.