«Atirai sobre os manifestantes!» - Os media israelitas e a revolução egípcia
Internacional2011Fouad Ben Eliezer, figura do Partido Trabalhista israelita, não compreende o que aconteceu, e em todas as estações de rádio mostra o seu embaraço. O que aconteceu ao seu amigo Hosni Moubarak? Porque não deu a ordem aos militares para atirarem sobre as massas e assim pôr termo «aos motins?» Estas são as suas próprias palavras. Por Michel Warschawski.
Tendo em conta a sua relação amigável com o ditador egípcio, Ben Eliezer tornou-se nestes últimos dias um analista eminente dos assuntos egípcios, apenas desta vez, confessa com uma modéstia que lhe é pouco costumeira e muito simplesmente não compreende: cerca de centena de mortes a mais e tudo voltaria ao normal.
A verdade é que Ben Eliezer não tem nenhuma visão e não compreende nada, mas em Israel "todos os analistas dos assuntos árabes" e "especialistas das questões do Médio Oriente" - diplomados dos serviços de informações militares israelitas ou o da Mossad - são obrigados a admitir a sua ignorância. Uma vez mais, surpreendemo-nos, como nos surpreendemos pela passagem do Canal de Suez, em 1973, surpreendidos pela resistência palestino-libanesa, em 1982, pela tenacidade Hezbollah, em 2006, pela vitória do Hamas nas eleições palestinianas e assim sucessivamente.
Nos seus propósitos, Ben Eliezer é o reflexo da imprensa israelita que, imediatamente, tomou posição: todos com as forças da ordem e contra o movimento popular, ainda que, como, na Tunísia, aquilo queira dizer todo o povo. As massas árabes continuam as ser o inimigo e os regimes os seus parceiros. O facto de estes regimes serem autoritários, mortíferos e corruptos não são vistos de forma alguma como um inconveniente, mas como o testemunho da sua capacidade bem-vinda de dominar a sua população. Para dizer simplesmente: enquanto as massas árabes forem apenas uma horda, uma manada de selvagens sobrexcitados, os seus líderes são os fiadores da ordem ainda que, às vezes, Israel seja obrigado a fazer-lhes guerra.
Outra surpresa, desta vez, para as elites políticas e intelectuais do mundo inteiro, e não somente para Ben Eliezer e os nossos "comentadores": as massas populares, de Marrocos ao Iraque, da França à Bolívia, não leram «O fim da História» de Fukuyama, e se por acaso o leram, recusaram deixar o quadro da história quando espezinhadas e empurradas para a fome ou humilhadas. Tarde ou cedo, elas levantam-se e caçam os ditadores corruptos e arrogantes. Ainda que esteja atrasada, a revolução terminará por estoirar. Para se safar, mas não obrigatoriamente para ganhar, não é inconcebível que Moubarak oiça os conselhos da imprensa israelita e do general Ben Eliezer ordenando aos militares que esmaguem o levantamento com sangue.
Já se pode adivinhar qual será o tema da próxima etapa da imprensa e a campanha de propaganda dos nossos jornalistas especializados: Al-Qaida. As ditaduras de Ben Ali e Moubarak são justificadas para barragem o Islão militante e por trás das manifestações populares, não se encontra senão Ben Laden. Zvi Barel (Ha'aretz, 30 de janeiro) é um dos raros jornalistas a contestar o argumento de que a Irmandade Muçulmana estaria no centro do levantamento egípcio. E sublinha que o seu slogan não é "Allah Akhbar", mas "Abaixo o ditador! Abaixo a corrupção!". Assim, na Tunísia, o partido islâmico Al Nahda não teve papel na revolta, não só porque teria de se entregar à repressão cruel de Ben Ali e dos seus bandos.
Não é Al-Qaeda, nem a Irmandade Muçulmana que estão por trás das massas em cólera no Cairo, Rafah ou Suez, mas trinta anos de regime autoritário, de opressão e pobreza. Enquanto os jornalistas e políticos israelitas não o compreenderem, continuarão a surpreender-se cada vez que as massas (uma palavra "arcaica" há muito tempo saída do seu dicionário) tomarem o seu destino nas suas próprias mãos.
* Michel Warschawski é jornalista, escritor e fundador do Alternative Information Center (AIC) em Israel. Tradução : António José André